Quarta Parede

Blog de reflexão sobre teatro e dramaturgia.

Archive for the ‘Reflexão’ Category

… a ação dramática não é mais de nossa época …

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«(…)Além das condições materiais degradadas, vivemos uma crise estética, assim como uma crise dos conteúdos. Nos últimos anos, a criação teatral aderiu naturalmente às teorias nem sempre luminosas sobre a pós-dramaturgia e a “performance”. Curiosamente, as formas inovadoras que surgiram nos anos 1970 e 1980 continuam a orientar o credo estético de um grande número de teatros públicos e festivais, ainda que nesse assunto os imitadores estejam longe de se igualar a seus modelos. Os ingredientes dessa vanguarda insossa compõem uma papa cênica que passa por modelo do teatro moderno.

A poetologia desse teatro baseia-se na ideia de que a ação dramática não é mais de nossa época; que o homem não poderia se compreender como mestre de suas ações; que existem tantas verdades subjetivas quanto o número de espectadores presentes; que os acontecimentos representados no palco não exprimem nenhuma verdade válida para todos; que nossa experiência fragmentada do mundo somente encontra sua tradução num teatro fracionado, em que os gêneros se justaponham: corpo, dança, fotos, vídeos, música, palavra… Essa imbricação sensorial assegura ao espectador que este mundo caótico permanecerá para sempre indecifrável e que não há espaço para procurar ligações de causalidade ou culpados. (…)»

Thomas Oestermeier

Written by Jorge

Dezembro 23, 2013 at 2:26 pm

Publicado em Dramaturgia, Recortes, Reflexão

O teatro português e o 25 de abril

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Um bom texto de David Antunes:

«(…) O teatro português contemporâneo é essencialmente o resultado directo ou indirecto da Revolução de Abril de 1974, mesmo que a motivação ideológica, ou a reacção a ela, já há muito tenha deixado de fazer sentido, tanto para as companhias que então se formaram, como para os praticantes de teatro que entretanto se lhe seguiram. Seguindo muito de perto, nesta categorização e caracterização, Eugénia Vasques no seu texto 9 Considerations autour du Thêatre des années 90, datado de 1998, o teatro português contemporâneo é, por isso, aquele que é realizado por companhias que, nascidas nesse momento, ainda aí encontram um alento identitário forte, mesmo que a sua busca já seja outra, as companhias de teatro independente; por alguns freelancers de talento, que se afirmaram na década de 80 e que recusaram esse enquadramento para o qual as circunstâncias políticas e artísticas orientavam; por grupos ou companhias de
teatro alternativo, que foram criadas nos anos 90 com um cariz de vanguarda e diferença, mas nas quais se verifica agora uma espécie de utopia da ideologia, que se manifesta em temas relacionados com Portugal, o teatro e a sua missão, a ideia de companhia; por alguns novos para quem a questão nem se coloca, mas que herdaram esse contexto e tentam encontrar outro modo de expressão teatral, cada vez mais performativo, inclusivo e dialogante, em que as questões de género, identidade, dramaturgia, interrogação e decomposição das disciplinas artísticas são as cruciais. Por conseguinte, este panorama teatral e performativo começa a constituir-se no espírito colectivista e ideológico de uma luta pela liberdade e pela democracia, afirma essa liberdade nos anos que se seguem à Revolução, deve a sua existência e forma a uma realidade social, que teve de aprender a viver em democracia e pela democracia, confronta-se, mais recentemente, com uma espécie de ressaca de uma orientação que pode ser ideológica, num sentido lato, mas é também certamente ética e artística.(…)»
Texto completo: Teatro e Outras Artes Performativas

Written by Jorge

Janeiro 25, 2013 at 11:24 am

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Apolo e Dionísio redux

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Salvo erro, foi o encenador Vvoitek Ziemilski que apontou a recorrência de peças de teatro portuguesas que têm como tema a própria prática teatral, justificando-as com o facto de em Portugal só os profissionais de artes performativas irem ao teatro. Não quero crer que isso seja absolutamente verdade, até porque cada vez mais temos romances sobre escritores a escrever romances e filmes sobre realizadores a fazer filmes. Talvez a explicação mais correta derive do facto de cada linguagem artística ser mais verdadeira quando fala de si própria e não quando tenta abordar outros temas.

Mas isso é debate para outra ocasião, pois serve antes para introduzir duas peças de teatro que estiveram em cena no Porto – uma ainda o está – e que têm como principal tema o teatro e o questionar da prática teatral de hoje. As peças são «Não tenho olhar mas mamilos que endurecem quando alguém me olha», de Zeferino Mota (que já acabou a temporada), e «Talita», de Rodrigo Santos.

«Não tenho olhar mas mamilos que endurecem quando alguém me olha» apresenta um ator que, no final de representar a personagem Orestes, se questiona de forma erudita e intensa sobre o sentido do método e significado das personagens que representa. Cruzando meditações sobre o teatro antigo, sobre o mediatismo contemporâneo e sobre a expetativa do público no teatro, a obra parece criticar a fisicalidade que tem dominado o teatro contemporâneo, acusando os atores de serem “partes do corpo” de personagens, de não encarnarem nem compreenderem profundamente os textos clássicos que apresentam, e também o público de procurar a volúpia desses corpos e o entretenimento, em vez de se deixar tomar pela beleza poética e intelectual desses textos.
A encenação despojada dá primazia à dicção do texto, mas também à presença apolínea do corpo do ator, Daniel Macedo Pinto, que em gestos contidos procura a materialidade e a ocupação do texto eminentemente filosófico.

No campo diametralmente oposto, «Talita» narra a história de uma companhia de teatro que apenas faz clássicos – neste caso, o “Capuchinho Vermelho”, e uma atriz que se revolta e exige um texto novo, contemporâneo, que permita fazer “teatro moderno” e “vivo”, contra um encenador opressor que insiste em apostar nos clássicos. O enredo tem uma montagem em abismo, em que a atriz vestida de vermelho que costuma interpretar o Capuchinho Vermelho tenta fugir do “ventre” do teatro clássico em que o encenador, que costuma fazer o papel de Lobo Mau, a encerrou, acabando o encenador por ser morto pelo lenhador russo que irá fazer o papel de lenhador na peça dentro da peça. A meio caminho ironiza-se com os encenadores do teatro clássico, que tal lenhadores com os seus machados, cortam com as suas “canetas Bic” as “metáforas” que não compreendem dos textos clássicos, e compara-se a alegria e sensação de vida de um lenhador que acaba de derrubar uma árvore, ao sentimento de alegria e vida de um criador teatral que acaba de estrear uma peça.

É curioso ver como estas duas reflexões da prática teatral se opõem não só uma à outra como até às duas formas mais prestigiadas de fazer teatro hoje: o teatro físico e o teatro performativo, de inspiração realista.

“Não tenho olhar…” parece adotar uma posição idealista, contra o teatro físico, contra a “acessibilidade” da cultura, contra também o “entretenimento”, e o império da “imagem”. É uma posição eminentemente platónica de encarar o teatro como uma forma de transmissão intelectual e despojada da poesia textual. Todavia, depois da fenomenologia de Husserl, depois de Merleau-Ponty apontar que o conhecimento nasce de um movimento dos olhos anterior ao próprio pensamento, até que ponto as ideias puras de Platão ainda poderão existir? E contra a crescente virtualização da experiência humana, da tirania do olhar sobre todos os outros sentidos, porque não pode o teatro viver de mamilos endurecidos, dessa vida misteriosa do corpo dentro da nossa perceção? Se a Ilíada fala dos “aqueus de belos joelhos”, se o teatro grego expandia o corpo e o tornava ícone através de máscaras e adereços, porquê, recusar o corpo no teatro, recusar o seu potencial para apaixonar e comover, recusar a possibilidade de uma personagem nascer nos pés e não na cabeça?

Por outro lado, «Talita» está bastante próximo do estilo da companhia “Palmilha Dentada”: uma centrifugadora de referências e memórias dramatúrgicas e mediáticas, com referências ao teatro russo, a Shakespeare, à literatura oral, aos filmes clássicos de terror, às técnicas de análise dramatúrgica, etc., e recorrendo ao máximo artificialismo e contaminação teatral, usando perucas, bigodes e barbas postiças, fantoches, desenhos e ampliando a fisicalidade do ator até ao auge das convulsões quase dionisíacas da personagem da atriz Maria Torres. Ou seja, é um teatro tão dentro do teatro que já não concebe a vida fora dele, um teatro cuja criação é que parece vida, em que o movimento excessivo do ator – ora cómico ora trágico – é que parece vida. É um teatro que subverte Hegel, afirmando que o teatral é real e o real é teatral, e que no palco não há lugar para a racionalidade do olhar do encenador, das metáforas obscuras e das canetas Bic.

E, no entanto, este teatro é tão teatral que é inconcebível sem a encenação do teatro clássico que critica, sem o processo de reconhecimento ficcional que o público faz dos seus elementos. É uma “Talita” que não está presa no ventre do lobo mau, como crê, mas que monta a garupa do lobo mau do teatro clássico na esperança de subir mais alto e se tornar mais teatral. É por isso que na peça o encenador Sérgio pode ser assassinado por uma personagem tão excessiva e hiperficcional como “Ygor”, um aglomerado de Quasimodo, Peter Lorre, Lennie, Renfield, Boris Karloff, com maquilhagem, gel, bigode postiço, enchumaços, esgares e membros convulsos, etc., de modo a que público possa ver e ouvir o assassínio e ao mesmo tempo saber que é impossível que o teatro clássico possa algum dia ser assassinado.
No entanto, tanto uma como a outra obra parecem esquecer – ou pelo menos não questionar – duas coisas; dois alicerces do tempo de hoje: a tecnologia, as ferramentas que servem para ampliar o corpo até à monumentalidade, ao mesmo tempo que o afastam de nós; e a fragmentação, o facto de estarmos todos cada vez mais sós no meio das redes sociais que definem aquilo que nos interessa ou quem é importante para nós, e por isso o entretenimento, as referências ficcionais e mediáticas, tornam-se a nossa única companhia, a única realidade em que acreditamos.

Written by Jorge

Julho 23, 2012 at 5:38 pm

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Perplexidades da Escrita de Cena

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Algumas reflexões para e a partir do Encontro de Escritas de Cena, promovido pela Escola Superior de Teatro e Cinema.

– Diz Michel Foucault que a palavra é sempre o convocar de uma ausência, e não de uma presença. E por isso escrever para a cena é sempre inventar algo para o que está fora da cena e não pode participar dela.

– Poucos desconfiaram tanto da palavra como Nietzche, que a acusou de ser sempre vazia. De que onde haveria palavra não poderia haver emoção. A natureza da emoção é o silêncio. Só quando o sentimento foge é que o podemos nomear. Mas será que os sentimentos não nomeados existem?

– Magritte apagou um cachimbo, escrevendo debaixo da imagem deste que a imagem não era um cachimbo. Seria impossível para Magritte dizer que era um cachimbo, pois mentiria, se o fizesse. Mas ao dizer que não era o cachimbo, criou a dupla ausência de um cachimbo que não existia: a palavra do cachimbo e a imagem do cachimbo.

– Uma dificuldade: chamar a atenção para uma ausência é criar uma presença. A ser assim, ter a palavra em cena é ter a presença desmesurada do que está ausente dela. Uma ausência que sufoca tudo o que está presente na cena – que apaga a cena. Talvez por isso o dramaturgo seja a figura mais temida e detestada do teatro.

– O Evangelho segundo São João diz-nos que no início era o verbo e o verbo apontava para Deus. A palavra aponta para Deus. O que é Deus, no teatro? Se a cena é movimento, corpo e vida, o que está fora dela é a morte. Por isso a palavra aponta para a morte: a morte que está em curso, na tragédia grega, a morte que se planeia, na tragédia moderna, a morte que nos espera, na tragédia contemporânea.

– O que é escrever para a cena? Será criar puro som, musicalidade da língua? Será o escritor de cena um designer de vozes? Mas como podem as palavras, carregadas de sentidos, etimologias e emoções, ou mesmo o puro som, não remeter sempre para algo que não está lá, na cena?

– Uma explicação para eu não gostar de sons gravados em teatro: chamam-nos sempre a atenção para a ausência na cena daquilo que deveria produzir o som. – Outro problema: o que escrever? O que é que ainda não foi escrito? Que palavras, mesmo dispostas aleatoriamente, não convocam desde logo milhares de referências, interpretações e associações?

– Como limpar toda a tralha referencial e interpretativa da cabeça do espectador, para que ele fique diante do texto como se o texto tivesse vindo do espaço sideral?

– O problema da didascália: o momento em que aquele que escreve o que está fora da cena tenta exprimir o fora de cena através da cena – logo, um momento de nudez e vulnerabilidade do autor.

– Pior do que ignorar uma pessoa nua é tentar violá-la. Pior do que ignorar uma didascália é cumpri-la à risca.

– Numa arte tão efémera como o teatro, num objecto tão fugaz como a cena, como lidar com algo que é passado e perene como o texto? Como viver com a ruína que é o texto? Mas, não vivemos todos entre ruínas? E não é a ruína o objecto mais omnipresente e mais livre do mundo?

Jorge Palinhos

Written by Jorge

Maio 23, 2011 at 3:47 pm

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Alguns traços do drama contemporâneo a partir de Jean-Pierre Sarrazac

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As personagens do drama descem à terra, tornam-se mortais, banais, indistintas. E assim permitem de novo o drama, pois ao tornarem-se ninguém são também toda a gente.

Tornando-se ninguém, a personagem pode ser dupla, tripla, múltipla; o palco enche-se de vozes à medida que se esvazia de identidades.

A mortalidade das personagens torna-as portadoras de memória. Quando o fim está traçado, a peripécia torna-se fútil e a grande tragédia é o ter nascido para morrer.

Perante o absurdo do nascimento, existência e morte, a racionalidade torna-se suspeita, e a sua ferramenta, a palavra, quebra-se e torna-se redundante e inútil.

O dom da compressão: Ésquilo condensava vários dias em duas horas, Beckett comprime uma vida inteira em 15 minutos.

Written by Jorge

Fevereiro 17, 2011 at 10:03 am

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Sete Manias da Encenação

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«1. mania de que é preciso gostar do texto que se encena.

2. mania de que a encenação é a arte da coerência.

3. mania de que o palco é um lugar assim chamado.

4. mania de que se a marcação existe é para se ver.

5. mania de que não há razão nenhuma para que o corpo dos actores e os cenários não sejam mentirosos.

6. mania das coisas praticáveis.

7. mania das coisas significativas.

 

Luís Miguel Cintra

Do programa de Anfitrião de António José da Silva pelo Grupo de Teatro da Faculdade de Letras, Março de 1969»

 

Written by Jorge

Setembro 29, 2010 at 1:56 pm

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Não é bem um país…

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«… Não deveria ter de escrever que um País sem cultura nem criadores não é bem um País. Mas vou para outro argumento que talvez, neste tempo, pegue melhor: a cultura e o entretenimento são uma das áreas de maior crescimento em todo o Mundo. Segundo o “Creative Economy Report 2008″ das Nações Unidas, o sector cultural e criativo representava, em 2005, 3,4% do comércio mundial.

Mais recentemente, Augusto Mateus coordenou um estudo onde se concluía que o sector cultural e criativo representava 2,8% da riqueza gerada em Portugal (3,691 milhões de euros) e que dava emprego a 126 mil pessoas. Neste sector estão incluídas as actividades culturais nucleares (património, artes visuais, criação literária e artes performativas); as indústrias culturais (música, edição, software educativo e de lazer, cinema e vídeo e rádio e televisão); e as actividades criativas (serviços de software, arquitectura, publicidade, design e componentes criativas noutras actividades). O combustível desta gigantesca indústria são as actividades culturais nucleares. Sem elas, o motor pára. Não perceber isto é o mesmo que achar que é possível ter uma indústria de ponta sem investir em educação.

Mais do que isso: a criação artística afecta todas as áreas económicas que queiram acrescentar valor ao que produzem. Basta olhar para o sector do calçado ou dos têxteis para perceber quem sobreviveu e conseguiu competir. Que valor ali foi acrescentado ao que se fazia? Ou seja, sem criatividade não há qualidade. E sem arte, não há design, publicidade e por aí adiante. Não há desenvolvimento das telecomunicações, dos novos media e do entretenimento (tudo áreas de negócio com futuro) sem os famosos “conteúdos”. E não há “conteúdos” (como eu odeio esta palavra) sem produção cultural. Não há turismo competitivo sem actividades culturais. Não faltam no Mundo países mais baratos e com melhores praias.(…)

No entanto, a ideia de que num pais da dimensão de Portugal a cultura pode depender exclusivamente do mercado é absurda. Nunca assim foi, nunca assim será. Mesmo potências culturais como a França ou a Alemanha, com mercados internos bem maiores do que o português, investem muito dinheiro público no apoio à produção cultural. E consideram esse investimento uma prioridade. Ele não é um favor a ninguém. Assim como o investimento em Investigação e Desenvolvimento (garantido, em Portugal, quase exclusivamente pelo Estado) não é um favor aos cientistas, não é imediatamente rentável mas é central para o desenvolvimento económico e social de um País.

Um País que desiste dos seus artistas é um País que desiste da sua inteligência. Um País que desiste da sua inteligência é um País que desiste do seu futuro. Tendo em conta os reduzidos montantes de que estamos a falar, estes cortes são um crime. Um crime contra a esperança de sairmos do estado em que estamos. De virmos a ser mais do que uma bolsa de mão de obra barata.»

Daniel Oliveira

Written by Jorge

Julho 7, 2010 at 8:57 am

Publicado em Recortes, Reflexão