Quarta Parede

Blog de reflexão sobre teatro e dramaturgia.

Archive for the ‘Recortes’ Category

… a ação dramática não é mais de nossa época …

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«(…)Além das condições materiais degradadas, vivemos uma crise estética, assim como uma crise dos conteúdos. Nos últimos anos, a criação teatral aderiu naturalmente às teorias nem sempre luminosas sobre a pós-dramaturgia e a “performance”. Curiosamente, as formas inovadoras que surgiram nos anos 1970 e 1980 continuam a orientar o credo estético de um grande número de teatros públicos e festivais, ainda que nesse assunto os imitadores estejam longe de se igualar a seus modelos. Os ingredientes dessa vanguarda insossa compõem uma papa cênica que passa por modelo do teatro moderno.

A poetologia desse teatro baseia-se na ideia de que a ação dramática não é mais de nossa época; que o homem não poderia se compreender como mestre de suas ações; que existem tantas verdades subjetivas quanto o número de espectadores presentes; que os acontecimentos representados no palco não exprimem nenhuma verdade válida para todos; que nossa experiência fragmentada do mundo somente encontra sua tradução num teatro fracionado, em que os gêneros se justaponham: corpo, dança, fotos, vídeos, música, palavra… Essa imbricação sensorial assegura ao espectador que este mundo caótico permanecerá para sempre indecifrável e que não há espaço para procurar ligações de causalidade ou culpados. (…)»

Thomas Oestermeier

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Written by Jorge

Dezembro 23, 2013 at 2:26 pm

Publicado em Dramaturgia, Recortes, Reflexão

Feito para o palco

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(…)O primeiro, de natureza mais ampla, refere-se ao esclarecimento em universidades, escolas de teatro e cursos técnicos de dramaturgia sobre a finalidade do texto dramatúrgico: é preciso ter em mente que ele é escrito para o palco. O aspirante a autor teatral deveria ter, concomitantemente ao estudo de seu ofício, a oportunidade de encenar suas obras, para verificar, na prática, o abismo que há entre o texto literário e o texto teatral.

O fato é que o Teatro, por ser uma arte coletiva, sempre exigiu do dramaturgo uma ampla vivência de sua atividade, daí ser muito mais comum do que parece o fato de terem existido — e ainda existirem — inúmeros autores que acumularam mais de uma função (ator, diretor, produtor etc.) para realizar a sua obra.

Além disso, os textos que nos chegam, de gregos a Brecht e Beckett, passando por Shakespeare, Molière e tantos outros, nunca foram fruto do trabalho de artistas isolados, alheios ao específico da dramaturgia, mas o resultado de um complexo processo de decantação, determinado pela inteireza do fenômeno teatral.(…)

(Samir Yazbek, http://oglobo.globo.com/cultura/feito-para-palco-10353869)

Written by Jorge

Outubro 14, 2013 at 12:31 pm

Publicado em Recortes

Dramaturgia vs Criação

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Afonso Becerra:

«(…)Igual que la “metalurgia” es el trabajo con los metales, la “dramaturgia” es el trabajo con las acciones y presupone un oficio, un artesanato e, incluso, cuando se hace con vocación, pasión y valores, puede elevarse a un “arte”.

Además, como otras disciplinas profesionales y artísticas, la dramaturgia (texto, tejido o composición de acciones escénicas), presupone unos conocimientos técnicos y metodológicos que han ido evolucionando a lo largo de la historia de las artes escénicas. Esas técnicas y metodologías que cada dramaturga/o rehace, actualiza y personaliza, suelen ser el resultado de una “tradición” de maestras/os, de artesanas/os y de artistas, que nos han servido de guía, para orientar la brújula de nuestras inquietudes teatrales. Así Gordon Craig, Tadeusz Kantor, Kurt Joss, Mary Wigman, Pina Bausch etc. han marcado tendencias y nos han servido para reorientar nuestro labor con las acciones escénicas. Lo mismo que en los textos (tejidos, partituras) escritos de Heiner Müller, Séneca, o en las reflexiones de Antonin Artaud, Sarah Kane encontró algunos de sus maestros a partir de los cuales evolucionar y refinar su poética dramatúrgica.

(…)Es bien cierto que el manejo y el conocimiento técnico, metodológico y teórico no son garantía para realizar una “obra de arte” escénica, si no existe una vocación, una pasión, algo que decir o algo sobre lo que interrogar(nos). Pero sin esas condiciones artesanales y de oficio y artificio teatral, que han ido evolucionando a lo largo de la historia, no hay posibilidad, tampoco, de realizar una “obra de arte”.» Fonte

Written by Jorge

Março 27, 2013 at 11:04 am

Publicado em Dramaturgia, Recortes

Sete Manias da Encenação

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«1. mania de que é preciso gostar do texto que se encena.

2. mania de que a encenação é a arte da coerência.

3. mania de que o palco é um lugar assim chamado.

4. mania de que se a marcação existe é para se ver.

5. mania de que não há razão nenhuma para que o corpo dos actores e os cenários não sejam mentirosos.

6. mania das coisas praticáveis.

7. mania das coisas significativas.

 

Luís Miguel Cintra

Do programa de Anfitrião de António José da Silva pelo Grupo de Teatro da Faculdade de Letras, Março de 1969»

 

Written by Jorge

Setembro 29, 2010 at 1:56 pm

Publicado em Recortes, Reflexão

Não é bem um país…

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«… Não deveria ter de escrever que um País sem cultura nem criadores não é bem um País. Mas vou para outro argumento que talvez, neste tempo, pegue melhor: a cultura e o entretenimento são uma das áreas de maior crescimento em todo o Mundo. Segundo o “Creative Economy Report 2008″ das Nações Unidas, o sector cultural e criativo representava, em 2005, 3,4% do comércio mundial.

Mais recentemente, Augusto Mateus coordenou um estudo onde se concluía que o sector cultural e criativo representava 2,8% da riqueza gerada em Portugal (3,691 milhões de euros) e que dava emprego a 126 mil pessoas. Neste sector estão incluídas as actividades culturais nucleares (património, artes visuais, criação literária e artes performativas); as indústrias culturais (música, edição, software educativo e de lazer, cinema e vídeo e rádio e televisão); e as actividades criativas (serviços de software, arquitectura, publicidade, design e componentes criativas noutras actividades). O combustível desta gigantesca indústria são as actividades culturais nucleares. Sem elas, o motor pára. Não perceber isto é o mesmo que achar que é possível ter uma indústria de ponta sem investir em educação.

Mais do que isso: a criação artística afecta todas as áreas económicas que queiram acrescentar valor ao que produzem. Basta olhar para o sector do calçado ou dos têxteis para perceber quem sobreviveu e conseguiu competir. Que valor ali foi acrescentado ao que se fazia? Ou seja, sem criatividade não há qualidade. E sem arte, não há design, publicidade e por aí adiante. Não há desenvolvimento das telecomunicações, dos novos media e do entretenimento (tudo áreas de negócio com futuro) sem os famosos “conteúdos”. E não há “conteúdos” (como eu odeio esta palavra) sem produção cultural. Não há turismo competitivo sem actividades culturais. Não faltam no Mundo países mais baratos e com melhores praias.(…)

No entanto, a ideia de que num pais da dimensão de Portugal a cultura pode depender exclusivamente do mercado é absurda. Nunca assim foi, nunca assim será. Mesmo potências culturais como a França ou a Alemanha, com mercados internos bem maiores do que o português, investem muito dinheiro público no apoio à produção cultural. E consideram esse investimento uma prioridade. Ele não é um favor a ninguém. Assim como o investimento em Investigação e Desenvolvimento (garantido, em Portugal, quase exclusivamente pelo Estado) não é um favor aos cientistas, não é imediatamente rentável mas é central para o desenvolvimento económico e social de um País.

Um País que desiste dos seus artistas é um País que desiste da sua inteligência. Um País que desiste da sua inteligência é um País que desiste do seu futuro. Tendo em conta os reduzidos montantes de que estamos a falar, estes cortes são um crime. Um crime contra a esperança de sairmos do estado em que estamos. De virmos a ser mais do que uma bolsa de mão de obra barata.»

Daniel Oliveira

Written by Jorge

Julho 7, 2010 at 8:57 am

Publicado em Recortes, Reflexão

Dois Km de Auto-estrada

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«(…)À tragédia na criação e produção artística e cultural, junta-se a tragédia social; os últimos números conhecidos dizem-nos que o sector das artes do espectáculo e do cinema empregam directamente mais de 12 mil pessoas. É este o tamanho da tragédia.

E o que se poupa com estes cortes? Nem mais nem menos que 2 Km de autoestrada. Parece anedota, mas não é. O excesso de zelo do Ministério da Cultura, na aprendizagem dos cortes prescritos pelo bloco central, ditou que se pusesse em causa todo um sector por 3 milhões de euros. O sector cultural tem esta virtualidade tantas vezes esquecida: gera muito emprego e riqueza a partir de muito pouco financiamento estatal. E aqui chegamos à segunda exigência do sector: basta de insultos.

A actual Ministra da Cultura ressuscitou um discurso antigo e de menorização da criação artística assente na ideia de “subsidiodependência”. A Senhora Ministra da Cultura chegou mesmo a afirmar que nunca recebeu um subsídio porque sempre foi contratada. Por estranho que pareça é preciso explicar-lhe que sempre foi contratada por instituições que recebem financiamento, subsídios, do Estado. Como todos os trabalhadores e todas as trabalhadoras do sector. (…)»

Catarina Martins

Written by Jorge

Julho 6, 2010 at 3:37 pm

Publicado em Recortes, Reflexão

Porque é que os romancistas são maus dramaturgos?

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«(…)Why have so many writers had so much success between paperback covers and so little on stage? Novels, like plays, rely on plotting and character; they often include mounds of dialogue. And yet, though I reread a couple of novels by Graham Greene every year, I’m unlikely to race to see a production of The Great Jowett. While the comic stories of PG Wodehouse remain ever fresh, plays such as The Riviera Girl and Candle-Light have rather staled. (Do feel free to award Sir Pelham a pass for the book to Anything Goes.) As Philip Hensher writes, Henry James’s forays in front of the footlights produced one of the greatest theatrical disasters of the 19th century. And I will freely commiserate with anyone forced to endure Virginia Woolf’s Freshwater; that Woolf never intended it for performance only confirms her great intelligence.
Of course, this cuts both ways. Playwrights have also contributed to our stock of mediocre novels. Tom Stoppard’s Lord Malquist and Mr Moon is certainly not a terrible tome, but it is hardly on the level of even his one-acts. George Bernard Shaw never enjoyed much success with his fiction, and while Luigi Pirandello did, his books have been forgotten while his plays endure. Were it not for university courses, the novels of Jean-Paul Sartre and Jean Genet might remain unread, even as their plays are widely produced. (Although I should say it is only thanks to such a course that I bothered with the novels of Samuel Beckett, and I am heartily glad I did.)

Why have so many writers had so much success between paperback covers and so little on stage? Novels, like plays, rely on plotting and character; they often include mounds of dialogue. And yet, though I reread a couple of novels by Graham Greene every year, I’m unlikely to race to see a production of The Great Jowett. While the comic stories of PG Wodehouse remain ever fresh, plays such as The Riviera Girl and Candle-Light have rather staled. (Do feel free to award Sir Pelham a pass for the book to Anything Goes.) As Philip Hensher writes, Henry James’s forays in front of the footlights produced one of the greatest theatrical disasters of the 19th century. And I will freely commiserate with anyone forced to endure Virginia Woolf’s Freshwater; that Woolf never intended it for performance only confirms her great intelligence.
Of course, this cuts both ways. Playwrights have also contributed to our stock of mediocre novels. Tom Stoppard’s Lord Malquist and Mr Moon is certainly not a terrible tome, but it is hardly on the level of even his one-acts. George Bernard Shaw never enjoyed much success with his fiction, and while Luigi Pirandello did, his books have been forgotten while his plays endure. Were it not for university courses, the novels of Jean-Paul Sartre and Jean Genet might remain unread, even as their plays are widely produced. (Although I should say it is only thanks to such a course that I bothered with the novels of Samuel Beckett, and I am heartily glad I did.)…»

Guardian

Written by Jorge

Julho 2, 2010 at 2:12 pm

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