Quarta Parede

Blog de reflexão sobre teatro e dramaturgia.

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Algumas medidas culturais do novo governo comentadas

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Note-se, primeiro, que o Programa do Novo Governo dá grande relevo às políticas do livro e da leitura, apresentando no geral boas medidas, como o fomento das traduções e da promoção da leitura, o que não surpreende tendo em conta a pessoa que dirige a secretaria de Estado. Já o resto é mais problemático:

«- O Governo assume o objectivo de aprofundar a ligação do sector do cinema ao serviço público e privado de televisão. Ao mesmo tempo, o Governo reavaliará a execução e gestão do Fundo de Investimento para o Cinema e o Audiovisual.»

E como coadunar inovação artística com o desejo das televisões em obterem conteúdos baratos e popularuchos? Alguém já reparou na qualidade da maioria das produções de ficção para a TV?

«A fim de criar uma exigência de comunicação com o público e uma preocupação com a distribuição e exibição das obras cinematográficas, o Governo, através do Instituto do Cinema  e  do  Audiovisual,  irá  ter  em  conta  os  resultados  de  bilheteira  e  número  de espectadores obtidos pelos filmes anteriores dos produtores e realizadores candidatos a apoios.»

Aparentemente os produtores de “O Crime do Padre Amaro” têm financiamento garantido para o resto da vida. Já os mais internacionalmente reputados realizadores portugueses, como o Manoel de Oliveira e o Pedro Costa, talvez devam ponderar emigrar.

«Consciente  de  um  desajustamento  entre  a  quantidade  de  equipamentos  culturais disponíveis  e  a  sua  sustentabilidade,  a  Secretaria  de  Estado  da  Cultura  promoverá  a elaboração de um Livro Branco da Cultura para as cinco Regiões-Plano do continente. Esse  documento,  em  permanente  construção,  tem  como  objectivo  reunir  toda  a informação disponível sobre a agenda cultural nacional.»

Aparentemente, a nova secretaria de Estado não faz ideia do que se passa no país em termos culturais. E provavelmente vai precisar de contratar mais funcionários para a cultura para o descobrir.

«O  Governo  vai  restaurar a identidade cultural  e  o  prestígio artístico dos Teatros Nacionais, debilitados por políticas erráticas, e definindo, com clareza e objectividade, contratos-programa para estas entidades.»

Aparentemente são os únicos teatros que existem em Portugal e também os únicos que são vítimas de políticas erráticas. That’s all folks. Não existem mais artes performativas e visuais em Portugal. Passemos agora ao património e às indústrias criativas, com que o novo executivo parece estar mais à vontade.

«Em  coordenação  entre  vários  sectores  da  Administração,  e  em  colaboração  com instituições  internacionais,  o  Governo  promoverá  a  classificação  e  preservação  do património Português espalhado pelo mundo.»

Uma medida bondosa, à partida, mas de onde virá o dinheiro para preservar o infindável património português no mundo? E, já agora, como é que se vai lidar com as autoridades que têm hoje direitos sobre esse património?

«-  Redação, com os  restantes sectores envolvidos (Economia, Finanças, Segurança Social,  Emprego,  Educação  e  Ciência),  de  um  Estatuto dos Profissionais das Artes, a completar no prazo de 270 dias;»

Uma boa medida, embora a noção de “Profissional das Artes” Seja tão ampla que me parece de difícil aplicação. Qual é a semelhança, em termos pragmáticos, da atividade profissional de um ator e um escultor?

«-  Promover  a  proximidade  e  articulação  entre  os  criadores  e  as  indústrias  de modo a potenciar o valor económico de projetos e talentos;»

Aparentemente uma boa medida, mas que me levanta a questão: concretamente, que indústrias criativas sólidas é que existem em Portugal?

«-  Apoiar  a  criação  de  gabinetes  empresariais  vocacionados  para  a  gestão  de entidades culturais independentes;»

Uma medida alarmante e contraditória. Se as entidades culturais são “independentes”, como é que podem continuar a sê-lo sob a gestão de um “gabinete empresarial”? Sabendo que as entidades culturais portuguesas, regra geral, têm margens de lucro mínimas, como é que podem sustentar “gabinetes empresariais” para as gerirem? E, finalmente, que tipo de “cultura independente” é que se pretende promover, para a colocar sob a alçada de “gabinetes empresariais”?

De notar ainda, que não há qualquer menção ao aumento, ou mesmo manutenção do orçamento para a secretaria de Estado da Cultura, e muito menos ao programa Guimarães 2012.

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Written by Jorge

Junho 28, 2011 at 4:45 pm

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Obscena 16/17

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O último número, duplo, da revista Obscena está disponível online. Em grande destaque, o orçamento para a Cultura.

Written by Jorge

Novembro 21, 2008 at 4:18 pm

Publicado em Publicações