Quarta Parede

Blog de reflexão sobre teatro e dramaturgia.

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A falência de uma câmara municipal

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A vandalização – à falta de melhor termo – do espaço comunitário da Fontinha por parte das forças policiais municipais é o auge e a prova da falência da política urbana de Rui Rio para o Porto.

A chamada Es.Col.A da Fontinha constituía a ocupação pacífica de uma escola abandonada no bairro social da Fontinha. Durante um ano, voluntários organizaram atividades para as crianças e habitantes de uma zona degradada do Porto, criando um espaço de partilha e encontro comunitário, que permitia retirar jovens em risco das ruas e apoiar os mais idosos. A Câmara Municipal do Porto recusou-se sempre a aceitar o projeto e tentou de todas as formas extingui-lo. Recentemente, por exemplo, propôs que a associação da Es.Col.A assinasse um contrato de permanência até Junho de 2012, com a condição – implícita – de que teria de fechar o espaço nessa altura. Não conseguindo acabar com o movimento de forma discreta, acabou por ter de fazê-lo através de uma das mais violentas ações policiais de memória recente.

No entanto, nada há de excecional nesta ação de Rui Rio. Ao longo da década que esteve à frente da Câmara do Porto o autarca tentou implementar uma política de privatização sistemática do bem público, de que são casos paradigmáticos o teatro municipal Rivoli, a alienação de património municipal e a privatização dos serviços públicos. A Es.Col.A constituía, por isso, a pedra no sapato que revelava a falência das políticas urbanas e sociais da autarquia, expondo a desertificação da cidade e o abandono das populações mais carenciadas sob o atual consulado do PSD-CDS.

À prática de privatização do espaço comum associava-se ainda a aspiração de tornar o Porto num destino de excelência de um turismo endinheirado. Para tanto, organizaram-se grandes eventos mediáticos, como o Circuito da Boavista e a sua “corrida de milionários”, os aviões da Red Bull, o franchising de musicais de La Feria, a transformação do Pavilhão Rosa Mota num centro de congressos, a abertura de hotéis de luxo na Baixa e recuperação da zona com imóveis de alto preço, a implosão de bairros sociais em localizações privilegiadas para dar lugar a urbanizações luxuosas, e a transformação da zona ribeirinha em blocos de apartamentos de classe alta.

Estas políticas foram apoiadas pela falta de oposição, pela atitude ditatorial e violenta  do autarca – que o transformaram, sem surpresa, num dos políticos mais populares num país onde o autoritarismo e a violência seduzem muita gente -, e também numa eficaz máquina publicitária, que encheu a cidade de outdoors e cartazes e transformaram o site autárquico num órgão de propaganda ad hominem que chegou a ser ridicularizado pelo insuspeito Vasco Pulido Valente.

E, no entanto, com condições tão favoráveis, a política autárquica falhou completamente. Longe de atrair turistas endinheirados, hoje o Porto é um destino de turistas mochileiros, que fizeram multiplicar os hostels de baixo custo, dinamizaram uma vida de bares e de galerias de arte, e tornaram as ruas num espaço público de arte e eventos. Enquanto isso, as dispendiosas políticas “de lazer” e propaganda deixaram a Câmara endividada, alguns dos grandes eventos foram-se embora, o Rivoli é um escombro cultural, as casas recuperadas da Baixa continuam à espera de compradores, a população continua a abandonar a Baixa e a cidade vê-se privada de equipamentos, bens e dinâmicas próprias importantes que dificilmente recuperará no futuro.

Mais doloroso ainda para Rui Rio talvez seja saber que as suas políticas não só falharam como não terão continuação, visto que no final deste mandato verá a câmara ir para o PS ou para o seu arqui-inimigo, Luís Filipe Menezes.

Por isso, quando a máquina propagandística da câmara se calar, a cidade verá Rui Rio como o mais falhado dos seus presidentes, que precisou de mobilizar centenas de polícias para destruir o espaço comum dos habitantes pobres de um bairro social e tentar afirmar a sua influência sobre uma cidade, cidade essa que há muito escapou ao seu poder.

Written by Jorge

Abril 20, 2012 at 10:24 am

A velocidade do mentiroso

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«São precisos muitos anos do antigo Rivoli para chegar às 60 mil pessoas [que assistiram ao Jesus Cristo Superstar]»
Rui Rio

“No entanto, numa análise estatística do período temporal compreendido entre 2001 e 2005, através de documentos a que o JN teve acesso, constata-se que, anualmente, o Teatro [Rivoli] nunca teve menos do que 126 mil espectadores*.”
JN

Via Kontratempos 

P.S. – Já para não falar da enorme variedade de concertos, dança, cinema, novo circo, teatro e outros espectáculos que o Rivoli costumava disponibilizar.

Written by Jorge

Setembro 24, 2007 at 12:05 pm

Publicado em Contra-desinformação

A credibilidade das informações camarárias

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 No seu blog, Lauro António, secundado por Eduardo Pitta, pergunta:

Já agora um pouco de esforço: os 1500 contos eram gastos em quê, por dia, se não serviam sequer para montar espectáculos e eram consumidos unicamente na manutenção da sala?

A resposta é esta:

Prejuízos da Culturporto vieram com a gestão de Rui Rio

Jorge Marmelo

Em 2002, com um orçamento ainda feito pela equipa de Manuela de Melo,
a instituição teve quase um milhão de euros de resultado positivo,
voltando depois ao prejuízo. Receitas de bilheteira do Rivoli cresceram continuamente entre 2001 e 2005, apesar do desinvestimento da autarquia

Quando, em Julho do ano passado, anunciou a privatização do Rivoli, o presidente da Câmara do Porto, Rui Rio, argumentou que a autarquia pouparia, com esta medida, 10,9 milhões de euros em quatro anos. Essa quantia corresponde, porém, ao total da verba que a câmara transferiu, entre 2002 e 2005, para a Culturporto, entidade já extinta e que geria não só o Rivoli, mas assegurava também as actividades de animação da cidade (as quais vão continuar a ser pagas pela edilidade, através da empresa municipal PortoLazer, entretanto criada). Esta é apenas uma das conclusões a que se pode chegar consultando os relatórios e contas da Culturporto no referido período.

Público

Written by Jorge

Julho 2, 2007 at 10:33 am