Quarta Parede

Blog de reflexão sobre teatro e dramaturgia.

«Estamos a ouvir, mas não estamos a escutar»

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(Texto do programa da peça “Ficheiros Secretos”, da companhia Visões Úteis.)

Jorge Palinhos

Bem-vindo ao Teatro Carlos Alberto. Para aqui chegar talvez tenha vindo de automóvel, passando por portagens que identificaram o seu veículo, as horas a que passou, a velocidade a que passou e a frequência com que faz este percurso. Talvez tenha vindo de transportes públicos, usando um passe que tem um microchip que regista o número de viagens, a regularidade das viagens e o itinerário das viagens que faz todos os meses. Se teve a sorte de vir a pé, é possível que tenha sido apanhado por câmaras de vigilância equipadas com sistemas de reconhcimento facial, que conseguem dizer quem é e, em algumas situações, qual o seu estado emocional enquanto caminhava.

Ao chegar, talvez tenha comprado o seu bilhete com cartão multibanco ou cartão de crédito, e assim informou o seu banco do local onde se encontra, da hora da transação e do tipo de compra. Ou então levantou o dinheiro necessário numa caixa multibanco, que registou a sua transação e a sua imagem, apenas por uma questão de segurança, claro. E provavelmente guardou o cartão multibanco na carteira, junto do cartão do cidadão, onde se encontram todas as suas informações fiscais, a identificação policial que o Estado fez de si e as suas informações médicas, e talvez entre alguns cartões de clientes, que lhe dão descontos por ceder os seus dados pessoais às lojas que visita e a informar sobre que tipo de artigos gosta de comprar.

E junto da carteira é possível que tenha o seu telemóvel 3G, que permite que seja localizado com precisão a cada momento, além de registar quantas chamadas faz, para quem, com que duração, a quem manda SMS e com que conteúdo.

E talvez seja o orgulhoso proprietário de um tablet ou de um smartphone, que lhe dá acesso à sua conta de e-mail, cuja empresa proprietária lhe rastreia as mensagens para saber que assuntos lhe interessam e que publicidade lhe poderá dirigir, e lhe dá acesso à sua conta de Facebook, ou outra rede social, que regista qual a sua rede social, qual a sua formação, qual a sua profissão, qual o seu estado civil, que tipo de ligações partilha, com quem tira fotografias, com quem troca mensagens e sobre quê. É possível que o smartphone ou o tablet tenham acesso a um sistema de armazenamento na nuvem, como o Dropbox, o Google Drive, o Skydrive, ou outro, que permitem às empresas que proporcionam este serviço aceder – por uma simples questão de segurança e melhor funcionamento – aos seus documentos pessoais e profissionais, projetos artísticos, rascunhos de romances, ideias de negócios, investigações científicas, manifestos políticos, trabalhos académicos, diários privados, cartas amorosas, fotografias íntimas, planos subversivos, etc., etc., etc.

Não tem via verde? Não tem passe de transportes públicos? Não usa multibanco? Não tem telemóvel, nem e-mail, nem Facebook? Parabéns. Está na lista de indivíduos potencialmente suspeitos, cuja estranha recusa em aceitar todas as comodidades que a sociedade lhe dá, a troco de manter uma ideia muito peculiar e, diga-se, arcaica de privacidade, o apontam como alguém que tem segredos inconfessáveis e ameaçadores para o Estado, e por isso talvez mereça uma investigação de maior proximidade, como ser alvo de escutas telefónicas ou visitas inesperadas.

E é por tudo isto que, apesar de ser apenas espectador de teatro, é que nesta peça do Visões Úteis, você é que é o sujeito, o observado, o analisado, o alvo para quem se olha, a quem se ouve, a quem se analisa.

Mas esteja descansado. Está a ser ouvido, mas não está a ser escutado. Ao contrário da espionagem clássica, em que eram olhos e ouvidos humanos que o escutavam, e um cérebro muito humano que o avaliava, usando as emoções, as afinidades, a psicologia, a arte, agora são os computadores e a matemática que o espiam: máquinas que varrem todos os seus dados em busca dos recantos obscuros, do pó que tenta esconder, dos laços inconfessáveis que o unem aos outros sujeitos, digo, pessoas, para saber quem ama, quem odeia, quem aprecia, com quem se dá, com quem concorda, com quem discorda, com quem está, com quem esteve, com quem vai estar, e fazer sobre si diagramas, gráficos, mapas mentais, estatísticas, quantificações de cliques, de gostos, de pageviews, de tempo de permanência, de movimentos oculares. E toda esta informação sobre os gestos ínfimos do quotidiano é concentrada em centros de dados de petabytes e zetabytes, para que um dia, os agentes da inteligência de sinais – SigInt, que são os protagonistas desta peça -, possam descobrir um gesto, uma ligação, uma simpatia, que o tornem eternamente culpado, pois «é sempre o elemento humano que falha».

Isto são factos. E não há factos que possam mudar o mundo, apenas as interpretações desses factos. O Visões Úteis sabe disso e é isso que nos mostra nesta peça: a dificuldade da interpretação. Perante os factos, como interpretá-los de uma forma que faça sentido, que permita agir? «Não existe um pé universal. O formato dos pés pode ser distinguido em maioritariamente três tipos principais, tendo em consideração o tamanho dos dedos.» Eis um facto. O que é pode fazer com ele?

Pode, é certo, pensar sobre ele, partilhá-lo no Twitter, Facebook, weblog, mail, fazer anedotas sobre ele, comparar pés com amigos, dedicar-se a estudar o formato dos pés. Mas, esse facto vai mudar a forma como caminha? Como se relaciona com os outro? A sua opinião sobre como os passeios devem ser orientados? Vai comprar mais artigos de podologia? Financiar novos modelos de calçado que tenham em conta esta informação?

É sobre esta dificuldade, a dificuldade da interpretação, que se funda este espectáculo, e com a inteligência que caracteriza as produções da companhia, o Visões Úteis aborda essa dificuldade usando ferramentas clássicas do teatro que situem essa dificuldade no contexto dos dilemas sociais que o teatro nasceu para retratar.

E por isso reconhecem-se na peça elementos da dramaturgia clássica, como o elemento do estrangeiro, do recém-chegado ou do ingénuo, a quem é necessário ensinar como a sociedade funciona, mas também o elemento do coro, do grupo que proclama as verdades que regem o funcionamento do próprio coletivo.

Reconhece-se também o teatro dentro de teatro, que Pirandello tanto explorou, a fim de abordar a importância da ficção na realidade, da forma como o que é ilusório é quase sempre aquilo que comanda o que é real.

E reconhece-se também as personagens que investigam racionalmente, e obsessivamente, a sua condição, o enigma que as submete, bem à maneira de Beckett, sem que essa racionalidade e essa obsessão consigam salvar as personagens do vazio desolador em que se encontram, e da forma sufocante como esse enigma as domina.

E o Visões Úteis faz-nos investigar essa ilusão pirandelliana e essa paralisia beckettiana através de três dos grandes mitos sociais do nosso tempo: o mito do fetiche, o mito da informação e o mito da ação.

Apresentando objetos, quais evidências irrefutáveis, a peça convoca a nossa crença – simultaneamente capitalista, cética e infantil – de que só o real é verdadeiro. Só a matéria, o produto, o resultado, a conclusão, o lucro, a estatística, o palpável importam para conhecer a verdade. E se o espectador pode ver, pode cheirar, pode tocar, pode contabilizar, como é que aquilo que tem à sua frente não pode ser verdadeiro?

E verdadeira, também, só pode ser a informação – a imensa informação – que a peça lhe faculta: informação objetiva, concreta, quantificada, percentual. Afinal, a informação é poder e, como afirmou uma importante personalidade da vida política portuguesa do pós-25 de abril, «duas pessoas na posse da mesma informação têm que concordar»*. Mesmo que a informação seja parcial, contraditória, confusa, ambígua, controversa e manipulável.

E se o espectador é chamado a participar, a agir, a interagir, a dar a sua opinião, a votar, a opinar, a expressar-se, como é que a sua experiência não pode ser autêntica, interessante, democrática e relevante. Ou seja, ser a vida verdadeira, mesmo que não passe de teatro fingido?

E, se estamos a agir sobre objetos, a fazer coisas, a produzir resultados, a descobrir ligações, então como é possível não estarmos a pensar, a mudar o mundo, a torná-lo melhor? Não é a ação o verdadeiro pensamento? Não é, como afirmou uma importante personalidade europeia do século XX, a «acção a verdadeira democracia»**? Ou será, pelo contrário, a ação a negação do pensamento? E, afinal de contas, para quê pensar, quando se pode ter acesso informação em qualquer momento e lugar, e agir com essa informação, ou, pelo menos, interagir com ela, ou, no mínimo dos mínimos, ficar confuso com ela?

Este tem sido o alicerce do percurso de Visões Úteis, um dos percursos mais coerentes e interessantes do panorama teatral português: colocar o pensamento ao serviço da ação teatral. O grupo pega em ideias ou questões que agitem os nossos dias e investiga-os exaustivamente, procurando encontrar o seu significado e o seu impacto nas nossas vidas, de uma forma que seja teatralmente relevante. E não deixa de ser também isso que fazem um pouco os anónimos analistas de informação de Ficheiros Secretos: procurar o sentido dos factos de que dispõem, sabendo bem que as suas interpretações podem mudar o mundo, mas também que, ao contrário dos factos, essas interpretações são falíveis, porque são – inevitavelmente e felizmente – humanas. E quando os analistas se detêm, perplexos, perante a quantidade, diversidade e proximidade da informação de que dispõem, são os próprios membros do Visões Úteis que se perturbam com a informação que o mundo é capaz de arquivar – e insiste em arquivar -, mesmo que toda essa informação continue incapaz de nos salvar e possa, pelo contrário, paralisar-nos. É que perante o perigo, perante os olhos de uma criança que nos olha, nos aponta o dedo, nos grita “Americano! Americano!” em tom acusatório, nós continuamos sem saber como agir, sem outra solução que não seja a de voltar à lei da selva de matar ou ser morto.

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Written by Jorge

Janeiro 27, 2014 às 10:01 pm

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