Quarta Parede

Blog de reflexão sobre teatro e dramaturgia.

Archive for Janeiro 2014

«Estamos a ouvir, mas não estamos a escutar»

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(Texto do programa da peça “Ficheiros Secretos”, da companhia Visões Úteis.)

Jorge Palinhos

Bem-vindo ao Teatro Carlos Alberto. Para aqui chegar talvez tenha vindo de automóvel, passando por portagens que identificaram o seu veículo, as horas a que passou, a velocidade a que passou e a frequência com que faz este percurso. Talvez tenha vindo de transportes públicos, usando um passe que tem um microchip que regista o número de viagens, a regularidade das viagens e o itinerário das viagens que faz todos os meses. Se teve a sorte de vir a pé, é possível que tenha sido apanhado por câmaras de vigilância equipadas com sistemas de reconhcimento facial, que conseguem dizer quem é e, em algumas situações, qual o seu estado emocional enquanto caminhava.

Ao chegar, talvez tenha comprado o seu bilhete com cartão multibanco ou cartão de crédito, e assim informou o seu banco do local onde se encontra, da hora da transação e do tipo de compra. Ou então levantou o dinheiro necessário numa caixa multibanco, que registou a sua transação e a sua imagem, apenas por uma questão de segurança, claro. E provavelmente guardou o cartão multibanco na carteira, junto do cartão do cidadão, onde se encontram todas as suas informações fiscais, a identificação policial que o Estado fez de si e as suas informações médicas, e talvez entre alguns cartões de clientes, que lhe dão descontos por ceder os seus dados pessoais às lojas que visita e a informar sobre que tipo de artigos gosta de comprar.

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Written by Jorge

Janeiro 27, 2014 at 10:01 pm

A manhã, a tarde e a noite, de Luís Mestre

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A manhã, a tarde e a noite é um texto de teatro de Luís Mestre, galardoado com o Grande Prémio Inatel 2010, em cena no Teatro Constantino Nery, com encenação de António Durães.

O enredo retrata uma família da classe média baixa, num registo clássico realista, fortemente monologal. Em três diferentes momentos do dia conhecemos três membros da família, a mãe, tomada pelo esquecimento da velhice e pela angústia em relação à empresa familiar e ao futuro dos filhos, o filho Pedro, que enveredou por uma espiral hedonista e criminal, e o filho Simão, cuja tentativa de seguir uma vida normal se traduziu num fiasco, e agora se lança numa solução extrema de libertação.

Luís Mestre assume o desejo de narrar “histórias portuguesas”, que neste texto refletem uma visão de falência das relações familiares e de um ideal de normalidade burguesa, às mãos de um contexto de egocentrismo individual, no qual apenas os jovens, os fortes e os oportunistas podem, senão triunfar, pelo menos sobreviver.

Written by Jorge

Janeiro 21, 2014 at 6:36 pm

Sangue na Guerra/Guelra/Guerra, de Fernando Giestas

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Sangue na Guerra/Guelra/Guerra, de Fernando Giestas, recentemente levado à cena pela companhia Magnólia, com encenação de Rogério de Carvalho, com o título Sangue na Guelra, é uma breve peça lírica sobre a guerra. Não é explícito qual a guerra em causa, e isso nem parece estar em questão. Giestas explora um sentimento extremo de desagregação, de remorso, de uma devastação que é interior e exterior.  Não existe sucessão narrativa nem conflito dramático, mas o retrato poético de um sentimento de perda, de um momento passado de destruição e ruína, para o qual não existem explicações ou causas, mas apenas uma constatação de uma espécie de destino inevitável.

Written by Jorge

Janeiro 9, 2014 at 6:54 pm

Publicado em Dramaturgia Portuguesa

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