Quarta Parede

Blog de reflexão sobre teatro e dramaturgia.

Apolo e Dionísio redux

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Salvo erro, foi o encenador Vvoitek Ziemilski que apontou a recorrência de peças de teatro portuguesas que têm como tema a própria prática teatral, justificando-as com o facto de em Portugal só os profissionais de artes performativas irem ao teatro. Não quero crer que isso seja absolutamente verdade, até porque cada vez mais temos romances sobre escritores a escrever romances e filmes sobre realizadores a fazer filmes. Talvez a explicação mais correta derive do facto de cada linguagem artística ser mais verdadeira quando fala de si própria e não quando tenta abordar outros temas.

Mas isso é debate para outra ocasião, pois serve antes para introduzir duas peças de teatro que estiveram em cena no Porto – uma ainda o está – e que têm como principal tema o teatro e o questionar da prática teatral de hoje. As peças são «Não tenho olhar mas mamilos que endurecem quando alguém me olha», de Zeferino Mota (que já acabou a temporada), e «Talita», de Rodrigo Santos.

«Não tenho olhar mas mamilos que endurecem quando alguém me olha» apresenta um ator que, no final de representar a personagem Orestes, se questiona de forma erudita e intensa sobre o sentido do método e significado das personagens que representa. Cruzando meditações sobre o teatro antigo, sobre o mediatismo contemporâneo e sobre a expetativa do público no teatro, a obra parece criticar a fisicalidade que tem dominado o teatro contemporâneo, acusando os atores de serem “partes do corpo” de personagens, de não encarnarem nem compreenderem profundamente os textos clássicos que apresentam, e também o público de procurar a volúpia desses corpos e o entretenimento, em vez de se deixar tomar pela beleza poética e intelectual desses textos.
A encenação despojada dá primazia à dicção do texto, mas também à presença apolínea do corpo do ator, Daniel Macedo Pinto, que em gestos contidos procura a materialidade e a ocupação do texto eminentemente filosófico.

No campo diametralmente oposto, «Talita» narra a história de uma companhia de teatro que apenas faz clássicos – neste caso, o “Capuchinho Vermelho”, e uma atriz que se revolta e exige um texto novo, contemporâneo, que permita fazer “teatro moderno” e “vivo”, contra um encenador opressor que insiste em apostar nos clássicos. O enredo tem uma montagem em abismo, em que a atriz vestida de vermelho que costuma interpretar o Capuchinho Vermelho tenta fugir do “ventre” do teatro clássico em que o encenador, que costuma fazer o papel de Lobo Mau, a encerrou, acabando o encenador por ser morto pelo lenhador russo que irá fazer o papel de lenhador na peça dentro da peça. A meio caminho ironiza-se com os encenadores do teatro clássico, que tal lenhadores com os seus machados, cortam com as suas “canetas Bic” as “metáforas” que não compreendem dos textos clássicos, e compara-se a alegria e sensação de vida de um lenhador que acaba de derrubar uma árvore, ao sentimento de alegria e vida de um criador teatral que acaba de estrear uma peça.

É curioso ver como estas duas reflexões da prática teatral se opõem não só uma à outra como até às duas formas mais prestigiadas de fazer teatro hoje: o teatro físico e o teatro performativo, de inspiração realista.

“Não tenho olhar…” parece adotar uma posição idealista, contra o teatro físico, contra a “acessibilidade” da cultura, contra também o “entretenimento”, e o império da “imagem”. É uma posição eminentemente platónica de encarar o teatro como uma forma de transmissão intelectual e despojada da poesia textual. Todavia, depois da fenomenologia de Husserl, depois de Merleau-Ponty apontar que o conhecimento nasce de um movimento dos olhos anterior ao próprio pensamento, até que ponto as ideias puras de Platão ainda poderão existir? E contra a crescente virtualização da experiência humana, da tirania do olhar sobre todos os outros sentidos, porque não pode o teatro viver de mamilos endurecidos, dessa vida misteriosa do corpo dentro da nossa perceção? Se a Ilíada fala dos “aqueus de belos joelhos”, se o teatro grego expandia o corpo e o tornava ícone através de máscaras e adereços, porquê, recusar o corpo no teatro, recusar o seu potencial para apaixonar e comover, recusar a possibilidade de uma personagem nascer nos pés e não na cabeça?

Por outro lado, «Talita» está bastante próximo do estilo da companhia “Palmilha Dentada”: uma centrifugadora de referências e memórias dramatúrgicas e mediáticas, com referências ao teatro russo, a Shakespeare, à literatura oral, aos filmes clássicos de terror, às técnicas de análise dramatúrgica, etc., e recorrendo ao máximo artificialismo e contaminação teatral, usando perucas, bigodes e barbas postiças, fantoches, desenhos e ampliando a fisicalidade do ator até ao auge das convulsões quase dionisíacas da personagem da atriz Maria Torres. Ou seja, é um teatro tão dentro do teatro que já não concebe a vida fora dele, um teatro cuja criação é que parece vida, em que o movimento excessivo do ator – ora cómico ora trágico – é que parece vida. É um teatro que subverte Hegel, afirmando que o teatral é real e o real é teatral, e que no palco não há lugar para a racionalidade do olhar do encenador, das metáforas obscuras e das canetas Bic.

E, no entanto, este teatro é tão teatral que é inconcebível sem a encenação do teatro clássico que critica, sem o processo de reconhecimento ficcional que o público faz dos seus elementos. É uma “Talita” que não está presa no ventre do lobo mau, como crê, mas que monta a garupa do lobo mau do teatro clássico na esperança de subir mais alto e se tornar mais teatral. É por isso que na peça o encenador Sérgio pode ser assassinado por uma personagem tão excessiva e hiperficcional como “Ygor”, um aglomerado de Quasimodo, Peter Lorre, Lennie, Renfield, Boris Karloff, com maquilhagem, gel, bigode postiço, enchumaços, esgares e membros convulsos, etc., de modo a que público possa ver e ouvir o assassínio e ao mesmo tempo saber que é impossível que o teatro clássico possa algum dia ser assassinado.
No entanto, tanto uma como a outra obra parecem esquecer – ou pelo menos não questionar – duas coisas; dois alicerces do tempo de hoje: a tecnologia, as ferramentas que servem para ampliar o corpo até à monumentalidade, ao mesmo tempo que o afastam de nós; e a fragmentação, o facto de estarmos todos cada vez mais sós no meio das redes sociais que definem aquilo que nos interessa ou quem é importante para nós, e por isso o entretenimento, as referências ficcionais e mediáticas, tornam-se a nossa única companhia, a única realidade em que acreditamos.

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Written by Jorge

Julho 23, 2012 às 5:38 pm

Publicado em Reflexão

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