Quarta Parede

Blog de reflexão sobre teatro e dramaturgia.

Perplexidades da Escrita de Cena

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Algumas reflexões para e a partir do Encontro de Escritas de Cena, promovido pela Escola Superior de Teatro e Cinema.

– Diz Michel Foucault que a palavra é sempre o convocar de uma ausência, e não de uma presença. E por isso escrever para a cena é sempre inventar algo para o que está fora da cena e não pode participar dela.

– Poucos desconfiaram tanto da palavra como Nietzche, que a acusou de ser sempre vazia. De que onde haveria palavra não poderia haver emoção. A natureza da emoção é o silêncio. Só quando o sentimento foge é que o podemos nomear. Mas será que os sentimentos não nomeados existem?

– Magritte apagou um cachimbo, escrevendo debaixo da imagem deste que a imagem não era um cachimbo. Seria impossível para Magritte dizer que era um cachimbo, pois mentiria, se o fizesse. Mas ao dizer que não era o cachimbo, criou a dupla ausência de um cachimbo que não existia: a palavra do cachimbo e a imagem do cachimbo.

– Uma dificuldade: chamar a atenção para uma ausência é criar uma presença. A ser assim, ter a palavra em cena é ter a presença desmesurada do que está ausente dela. Uma ausência que sufoca tudo o que está presente na cena – que apaga a cena. Talvez por isso o dramaturgo seja a figura mais temida e detestada do teatro.

– O Evangelho segundo São João diz-nos que no início era o verbo e o verbo apontava para Deus. A palavra aponta para Deus. O que é Deus, no teatro? Se a cena é movimento, corpo e vida, o que está fora dela é a morte. Por isso a palavra aponta para a morte: a morte que está em curso, na tragédia grega, a morte que se planeia, na tragédia moderna, a morte que nos espera, na tragédia contemporânea.

– O que é escrever para a cena? Será criar puro som, musicalidade da língua? Será o escritor de cena um designer de vozes? Mas como podem as palavras, carregadas de sentidos, etimologias e emoções, ou mesmo o puro som, não remeter sempre para algo que não está lá, na cena?

– Uma explicação para eu não gostar de sons gravados em teatro: chamam-nos sempre a atenção para a ausência na cena daquilo que deveria produzir o som. – Outro problema: o que escrever? O que é que ainda não foi escrito? Que palavras, mesmo dispostas aleatoriamente, não convocam desde logo milhares de referências, interpretações e associações?

– Como limpar toda a tralha referencial e interpretativa da cabeça do espectador, para que ele fique diante do texto como se o texto tivesse vindo do espaço sideral?

– O problema da didascália: o momento em que aquele que escreve o que está fora da cena tenta exprimir o fora de cena através da cena – logo, um momento de nudez e vulnerabilidade do autor.

– Pior do que ignorar uma pessoa nua é tentar violá-la. Pior do que ignorar uma didascália é cumpri-la à risca.

– Numa arte tão efémera como o teatro, num objecto tão fugaz como a cena, como lidar com algo que é passado e perene como o texto? Como viver com a ruína que é o texto? Mas, não vivemos todos entre ruínas? E não é a ruína o objecto mais omnipresente e mais livre do mundo?

Jorge Palinhos

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Written by Jorge

Maio 23, 2011 às 3:47 pm

Publicado em Reflexão

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