Quarta Parede

Blog de reflexão sobre teatro e dramaturgia.

Archive for Maio 2011

Perplexidades da Escrita de Cena

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Algumas reflexões para e a partir do Encontro de Escritas de Cena, promovido pela Escola Superior de Teatro e Cinema.

– Diz Michel Foucault que a palavra é sempre o convocar de uma ausência, e não de uma presença. E por isso escrever para a cena é sempre inventar algo para o que está fora da cena e não pode participar dela.

– Poucos desconfiaram tanto da palavra como Nietzche, que a acusou de ser sempre vazia. De que onde haveria palavra não poderia haver emoção. A natureza da emoção é o silêncio. Só quando o sentimento foge é que o podemos nomear. Mas será que os sentimentos não nomeados existem?

– Magritte apagou um cachimbo, escrevendo debaixo da imagem deste que a imagem não era um cachimbo. Seria impossível para Magritte dizer que era um cachimbo, pois mentiria, se o fizesse. Mas ao dizer que não era o cachimbo, criou a dupla ausência de um cachimbo que não existia: a palavra do cachimbo e a imagem do cachimbo.

– Uma dificuldade: chamar a atenção para uma ausência é criar uma presença. A ser assim, ter a palavra em cena é ter a presença desmesurada do que está ausente dela. Uma ausência que sufoca tudo o que está presente na cena – que apaga a cena. Talvez por isso o dramaturgo seja a figura mais temida e detestada do teatro.

– O Evangelho segundo São João diz-nos que no início era o verbo e o verbo apontava para Deus. A palavra aponta para Deus. O que é Deus, no teatro? Se a cena é movimento, corpo e vida, o que está fora dela é a morte. Por isso a palavra aponta para a morte: a morte que está em curso, na tragédia grega, a morte que se planeia, na tragédia moderna, a morte que nos espera, na tragédia contemporânea.

– O que é escrever para a cena? Será criar puro som, musicalidade da língua? Será o escritor de cena um designer de vozes? Mas como podem as palavras, carregadas de sentidos, etimologias e emoções, ou mesmo o puro som, não remeter sempre para algo que não está lá, na cena?

– Uma explicação para eu não gostar de sons gravados em teatro: chamam-nos sempre a atenção para a ausência na cena daquilo que deveria produzir o som. – Outro problema: o que escrever? O que é que ainda não foi escrito? Que palavras, mesmo dispostas aleatoriamente, não convocam desde logo milhares de referências, interpretações e associações?

– Como limpar toda a tralha referencial e interpretativa da cabeça do espectador, para que ele fique diante do texto como se o texto tivesse vindo do espaço sideral?

– O problema da didascália: o momento em que aquele que escreve o que está fora da cena tenta exprimir o fora de cena através da cena – logo, um momento de nudez e vulnerabilidade do autor.

– Pior do que ignorar uma pessoa nua é tentar violá-la. Pior do que ignorar uma didascália é cumpri-la à risca.

– Numa arte tão efémera como o teatro, num objecto tão fugaz como a cena, como lidar com algo que é passado e perene como o texto? Como viver com a ruína que é o texto? Mas, não vivemos todos entre ruínas? E não é a ruína o objecto mais omnipresente e mais livre do mundo?

Jorge Palinhos

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Written by Jorge

Maio 23, 2011 at 3:47 pm

Publicado em Reflexão

Perfil do dramaturgo Jez Butterworth

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«…He sought mentors: Harold Pinter, who appeared in the film of Mojo and "gave me a sense of fearlessness. To know that when you close your eyes and jump off the ledge, hands will hold you. Those aren’t Harold’s words. He’d never say anything like that. But that’s what I took from it." In his 2005 Nobel prize acceptance speech, Pinter suggested the way to write a play was to start with one line and see where it went; Butterworth turned off the TV and started his fourth play The Winterling there and then. (…)» (The Guardian)

Written by Jorge

Maio 18, 2011 at 11:00 am

Publicado em Dramaturgia, Entrevista