Quarta Parede

Blog de reflexão sobre teatro e dramaturgia.

Autobiografia de Jaime Salazar Sampaio

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(…) “O Teatro, antes de mais nada e acima de tudo, são as pessoas do teatro.

Mas quem são, ao certo, as pessoas do teatro? Todas aquelas, penso eu, que preencham mas preencham mesmo! estas duas condições: Serem pessoas como as outras.

Terem descoberto tarde ou cedo, mas com muita força! que o Teatro era o seu lugar. E quando eram empurradas para fora do Teatro, viam-se aflitas para respirar”.

“Tal como eu vejo as coisas, o Teatro é Amor, Mistério e Rebelião.

Escrevo as minhas peças para respirar. E é isso o Amor.

Depois de as ter escrito, não sei ao certo quem elas são. E aí está o Mistério. Melhor dizendo: uma pontinha do Grande Mistério, que é o das palavras a deslizarem no papel em branco.

E como vivemos neste nosso mundo, pleno de crimes e hipocrisia, seria possível escrever teatro que não fosse, à nossa maneira, um acto de Rebelião?” “Como já foi dito, sei muito pouco sobre o meu teatro. E se esta ignorância é boa ou má para as peças que vou escrevendo, não o sei ao certo. (…)

Texto completo:

«É verdade que nasci no dia 5 de Maio de 1925, na cidade de Lisboa.

Mas o que é nascer? Entrar neste mundo com uma carta de prego?… Um cheque em branco ou, pelo contrário?… Se é que há um contrário para estas coisas…

Não sei responder…

Ao que parece, até chegar às encruzilhadas da adolescência, fui um miúdo sossegadito e muito comunicativo. Raramente sujava o meu bibe branco e falava pelos cotovelos.

Depois, zás! Despi o bibe e fechei-me em copas.

Seria mesmo a adolescência a principal culpada por esta profunda e brusca mudança de comportamento?… E o que é a adolescência? Não tenho formação científica para tentar responder, de forma concreta, a estas perguntas. Mas posso dar palpites. É um privilégio dos ignorantes.

Para mim a adolescência foi assim uma espécie de… segundo nascimento. Ou, pelo menos, um enorme salto; deslumbrante e terrível. E não só a nível sexual, pois, de repente, olhei à minha volta, com acentuado sentido crítico e senti-me desorientado, profundamente desorientado… Se aquilo era o mundo dos adultos, eu estava metido num grande sarilho! Bom. Mas nem tudo foram desgraças na minha adolescência… Muito longe disso. E às vezes, até o mundo exterior (“o execrável mundo dos adultos”) me ofereceu inesperados e valiosos presentes.

Certo dia, um dos meus primos, onze anos mais velho do que eu, revelou-me a existência de três poetas, para mim inteiramente desconhecidos: Fernando Pessoa, António Botto e Carlos Drummond de Andrade.

Foi uma festa. Um terramoto.

Um deslumbramento.

Se é certo que antes disso eu já começara a escrevinhar, laboriosa e secretamente, umas versalhadas pouco convincentes (cheguei mesmo a fabricar sonetos, contando as sílabas pelos dedos da mão) ao descobrir que a Poesia podia ser “uma outra coisa”, senti que nem tudo estaria perdido e talvez eu pudesse, sem sair do mundo das palavras, encontrar um território onde coubessem todas as minhas contradições: estar sozinho e com todos os homens, aceitando e não aceitando o absurdo e o maravilhoso do quotidiano.

Encontrara pois um objectivo (tão vago como me convinha) mas faltava-me definir uma estratégia.

Não foi nada fácil. Por um lado, eu era (e ainda sou) um homem hesitante, mas também era (e sou ainda) muitíssimo teimoso. E acabou por ser a teimosia o timoneiro do barco da minha existência, atravessando um mar encarapelado de hesitações.

É claro que tem sido uma viagem acidentada, com alguns naufrágios, mudanças de rumo e erros de manobra. Muitíssimos (e às vezes dolorosos) erros de manobra.

Mas tudo isso é a pequena história da minha vida, podendo contar-se em meia dúzia de palavras. Eu queria escrever e estava disposto a pagar um preço para o conseguir. Porém, sendo eu quem sou e vivendo neste país, sabia não ter condições para me tornar um escritor profissional, sendo pois obrigado a “inventar” uma actividade complementar que me garantisse a sobrevivência.

Mas como escolher uma “profissão” que não me atrapalhasse demasiado a escrita? O melhor talvez fosse tirar um curso, disseram-me lá em casa e eu concordei. Sem grande entusiasmo e com bastante egoísmo, pois sabia que tínhamos pouco dinheiro e para o “menino” continuar os estudos, alguém teria de sacrificar-se.

E assim foi. Um belo dia, ao descer a “rampa da asneira” do Instituto Superior de Agronomia, reparei que trazia no bolso o meu diploma de Engenheiro Silvicultor.

Entretanto, no plano literário, alguma coisa me acontecera: em 1945 publicara no Bloco, uma antologia organizada pelo Luiz Pacheco e muito apreciada pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, alguns poemas e uma embrionária peça de teatro.

… Teatro?… Mas o que é que se estava a passar comigo? Então eu agora passara de uma escrita mais ou menos poética, para uma outra, mais ou menos destinada aos palcos?… Era preciso alguma desfaçatez, pois eu de teatros nada sabia. E só episodicamente fora, até àquela data, um espectador. A não ser de cinema. De cinema, sim. Disso é que eu gostava!… O Charlot! A Betty Davies! O Pamplinas! O Jean Gabin! O Humphrey Bogart!… Toda aquela gente, no écran, a olhar para mim, um magrizela refugiado numa sala escura, anonimamente em liberdade.

Bom. Até onde eu me lembro, eu deslizara da poesia para a dramaturgia sem premeditação e com bastante naturalidade. Talvez por saber (sem saber que sabia) que, para mim, estas duas formas de escrita eram duas cartas do mesmo baralho. E até talvez… do mesmo naipe.

Mas havia diferenças, é claro. Não só no plano técnico, como também, muito em especial, no campo das relações humanas.

Simplificando, pode dizer-se que a poesia era um encontro entre mim, o lápis e uma folha de papel. Quanto à escrita teatral, oferecia-me outras hipóteses de convivência. Bem mais ricas, variadas e estimulantes.

Logo de início, via-me obrigado a discutir com as minhas personagens, as quais, embora muitas vezes fossem parecidas comigo (e talvez por isso mesmo), costumavam dar-me bastante luta.

E, mais tarde, se a peça chegasse ao palco e eu, como muitas vezes viria a acontecer-me, tivesse condições para acompanhar a preparação do espectáculo, não só entrava em diálogo com os encenadores e um ou outro técnico, como também, e acima de tudo, tinha o privilégio de assistir em silêncio ao misterioso e fascinante trabalho dos actores, que davam vida às palavras do texto, levando-as das duas dimensões do papel para as três dimensões do palco.

Mas basta de explicações ou tentativas de explicação.

Estas e outras vantagens da escrita teatral não justificam inteiramente o meu percurso.

Aos vinte anos, dei por mim a escrever uma peça. E pronto… o teatro invadiu a minha vida.

Como não sei exactamente perceber porquê, às vezes atiro uma moeda ao ar. É a isso que eu chamo, pomposamente, as minhas “reflexões”.

E aqui transcrevo, total ou parcialmente, três exemplos.

“O Teatro, antes de mais nada e acima de tudo, são as pessoas do teatro.

Mas quem são, ao certo, as pessoas do teatro? Todas aquelas, penso eu, que preencham mas preencham mesmo! estas duas condições: Serem pessoas como as outras.

Terem descoberto tarde ou cedo, mas com muita força! que o Teatro era o seu lugar. E quando eram empurradas para fora do Teatro, viam-se aflitas para respirar”.

“Tal como eu vejo as coisas, o Teatro é Amor, Mistério e Rebelião.

Escrevo as minhas peças para respirar. E é isso o Amor.

Depois de as ter escrito, não sei ao certo quem elas são. E aí está o Mistério. Melhor dizendo: uma pontinha do Grande Mistério, que é o das palavras a deslizarem no papel em branco.

E como vivemos neste nosso mundo, pleno de crimes e hipocrisia, seria possível escrever teatro que não fosse, à nossa maneira, um acto de Rebelião?” “Como já foi dito, sei muito pouco sobre o meu teatro. E se esta ignorância é boa ou má para as peças que vou escrevendo, não o sei ao certo.

Sabemos tão pouco sobre todas as coisas, disse, certa vez… não me lembro quem.

E eu acrescento: pelo menos para mim, a vida foi uma viagem entre duas ignorâncias: a inicial, plena de esperança e de exaltação, e esta outra, no fim do percurso, um tanto mais amarga mas, paradoxalmente, bastante mais rica.

E mais serena”.

… É claro que, apesar de tudo, como cheguei de facto ao fim do percurso (tenho oitenta e dois anos) às vezes sou tentado a fazer um balanço. Mas, felizmente, as minhas personagens, mais sábias do que eu, desaconselham-me.

“A memória”, disse uma vez a Magdalena, naquele seu monólogo com o mesmo nome, “a memória é como todas as coisas… A memória das coisas. E dos homens… As pessoas enganam-se com as recordações. Desarrumam o passado, é tudo quanto fazem… Pegam num dia como os outros, voltam-no do avesso e…” Ora sendo assim (e eu nunca “desautorizo” as minhas personagens!), desisto do balanço, substituindo-o por algumas palavras do Jaime Augusto, uma outra personagem (para não dizer: o protagonista) de muitas das peças do meu teatro: “Estou em paz comigo. E com os meus fantasmas… É possível que eu não seja um admirável homem de teatro. Mas sem o Teatro, teria sido seguramente uma outra pessoa.

O que o Teatro me deu, ficou dado: uma Vivência e uma Convivência.

… Quanto às peças, elas são o rescaldo do fogo dos dias”.»

JL

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Written by Jorge

Abril 21, 2010 às 9:50 pm

Publicado em Uncategorized

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