Quarta Parede

Blog de reflexão sobre teatro e dramaturgia.

Jorge Louraço Figueira sobre “Jardim Zoológico de Cristal

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«O que mais impressiona neste espectáculo é ter tudo no sítio. O arranjo dos actores no cenário é preciso, e as sequências de luz, música e acção organizadas com sentido de justeza – o que, tendo em conta a míngua de metros quadrados do cenário, não é pouco. Passarei por isso à frente das considerações acerca do talento e trabalho artístico de cada membro da equipa, aliás mais ou menos crónicos, e não direi que os actores representam com convicção inabalável os estados de alma das personagens, nem que são cristalinos, cada um à sua maneira, e muito menos que o cenário e os figurinos compõem um quadro encantatório.

A encenação, como um todo, é um objecto plástico sólido, firmado com autoridade, que coloca desafios grandes à crítica, tal é o seu vigor dramatúrgico. Onde assenta este? Para quem não viu, Jardim Zoológico de Cristal começa com um narrador participante (Tom) apresentando a colecção de memórias que se vai seguir, em especial a do dia em que, a pedido da mãe (Amanda, abandonada pelo marido anos antes), Tom traz para jantar um possível pretendente à mão da irmã (Laura, uma jovem em idade casadoira, mas tímida, e aleijada de um pé, que passa a maior parte do tempo dedicada à sua colecção de animaizinhos de vidro).

A miragem de uma pessoa com quem ser feliz faz cada personagem agir desesperadamente. A peça foi escrita com um entrelaçamento de cenas que se sucedem como numa recordação. A concentração, num único palco, de cenas originalmente passadas em espaços distintos obriga a que os actores por vezes façam de conta que não vêem os outros. Esta sobreposição de cenas e a convenção de invisibilidade traduzem, na verdade, a impossibilidade de chegar ao outro mesmo quando ele está à nossa frente. É disso que fala a encenação (entre outras coisas, decerto). As personagens entram em loop nas suas tentativas, até que alguma delas consiga fugir dali. Mas mesmo a que consegue, o narrador, ficará para sempre aprisionado na recordação do passado.

Nesta encenação, as figuras inventadas por Tennessee Williams são tratadas como seres encarcerados. Até os elementos mais dinâmicos do teatro (dir-se-ia), as personagens, parecem estanques e estáticas. E estão, paralisadas pela fragilidade do desejo, com medo de se partirem. As personagens são como manequins numa montra, a quem imaginamos uma vida, semelhantes à colecção de figurinhas de animais por onde Laura coteja o mundo.

Esta identidade entre a encenação e o tema da peça descoberta pela encenação é muito bem conseguida, sim, mas diz respeito ainda a outra coisa: a um conhecimento da vida como um andar solitário entre a gente, que será facilmente reconhecível pelo público das várias cidades por onde a peça anda em digressão, quer devido ao solipsismo, quer graças à nostalgia do outro de que os portugueses parecem feitos. É essa comunhão de espírito entre o encenador e o seu público que faz a força deste espectáculo.»

Público

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Written by Jorge

Dezembro 14, 2009 às 12:46 pm

Publicado em Crítica

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