Quarta Parede

Blog de reflexão sobre teatro e dramaturgia.

A doença pode ser arte?

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Rita Marcalo quer sofrer um ataque de epilepsia em palco. É arte? É ético? Os críticos estão divididos
Rita Marcalo, uma coreógrafa e performer portuguesa radicada no Reino Unido – dirige a companhia Instant Dissidence, em Leeds -, tenciona sofrer um ataque de epilepsia em palco. O espectáculo, agendado para Dezembro, no teatro Bradford Playhouse, está a provocar polémica, quer da parte de associações de apoio a epilépticos – que alertam para os riscos de um ataque induzido e duvidam da eficácia desta performance enquanto meio de sensibilizar a opinião pública para a doença -, mas também de artistas e críticos, que discutem a própria pertinência estética do projecto.

Marcalo explicou que já suspendeu a medicação e que recorrerá a vários métodos para induzir um ataque quando estiver em cena, como ingerir álcool, fumar, privar-se de sono, jejuar e olhar fixamente para luzes estroboscópicas.

A artista ironiza com a controvérsia que está a gerar, lembrando que a Internet está cheia de vídeos de ataques de epilepsia, filmados com telemóveis sem o consentimento das vítimas, pelo que lhe parece singular que se esteja agora a contestar um caso em que é o doente que voluntariamente se expõe. Está previsto, aliás, que o início do eventual ataque em palco seja assinalado pelo toque de um alarme, convidando o público a usar os telemóveis para gravar as convulsões.

“A minha intenção é chamar a atenção para a epilepsia, tornando-a visível”, diz Marcalo, citada pela imprensa inglesa, acrescentando que o fará “numa perspectiva artística”.

O crítico de dança Tiago Bartolomeu Costa usa as próprias declarações da artista para contestar a natureza artística do projecto. “Do ponto de vista artístico, tudo cai por terra quando Rita Marcalo diz que o seu objectivo principal é, sendo epiléptica, chamar a atenção para a doença”, afirma. “O objectivo dela não é artístico, é social”, afirma, sublinhando que é isto que “distingue de forma muito clara” este projecto de outros que são “eminentemente artísticos”, como “as famosas cirurgias-performances da artista francesa Orlan” ou a performanceSleep Deprivation, na qual Marina Abramovic ficava “várias horas acordada numa galeria tentando perceber como é que o seu corpo reagia a isso”.

Gil Mendo, programador de dança da Culturgest e professor da Escola Superior de Dança do Instituto Politécnico de Lisboa, prefere não comentar um espectáculo que não conhece, mas adianta que não tem “uma posição moralista”, que respeita “a liberdade dos artistas” e que não põe “a questão de saber se é arte ou não é arte”. Admite que até pode haver alguma coisa que o “choque do ponto de vista ético”, mas precisa que só o saberá quando vir o espectáculo.

No Reino Unido, muito dos intervenientes na polémica estão a recuperar o alegado precedente do coreógrafo Bill T. Jones, que em 1994 encenou e interpretou Still/Here, uma peça em que aborda o sofrimento causado pela sida, de que ele próprio sofria. O rosto da contestação a Jones foi, na época, a crítica nova-iorquina Arlene Crosse, que argumentou que um artista, ao utilizar a sua doença, assegura inevitavelmente a compaixão do público e coloca-se ao abrigo da crítica. Gil Mendo discorda: “O que Bill T. Jones fez foi tratar um tema pertinente, não foi nenhum apelo à piedade.” Sendo possível questionar o projecto de Marcalo no plano ético, já discutir se se trata ou não de arte é, provavelmente, um debate sem saída. Mas que nem por isso deixará de se travar, como as próximas semanas, até à estreia do espectáculo, decerto confirmarão. com I.C.
Público

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Written by Jorge

Novembro 26, 2009 às 12:56 pm

Publicado em Peculiar, Recortes, Reflexão

Uma resposta

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  1. Se todos aqueles que usam medicamentos controlados, por qquer doença que seja, resolver suspender e fazer disso uma arte, vai faltar palco.
    No entanto, acho que arte não limitação. Errado foi aquele q declarou que arte é livre. é expressão. vai regular expressão dos outros. os unicos que podem se ofender com isso são os envolvidos. aqueles que tem esse tipo de doença. as vezes fazer de um ataque um momento de dor. virar uma coreografia. pra eles seja diferente. eles vivem isso. eu não faço ideia do que seja. se fosse ataque de loucura dava palpite…

    judoho

    Novembro 26, 2009 at 3:24 pm


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