Quarta Parede

Blog de reflexão sobre teatro e dramaturgia.

Archive for Novembro 2009

A doença pode ser arte?

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Rita Marcalo quer sofrer um ataque de epilepsia em palco. É arte? É ético? Os críticos estão divididos
Rita Marcalo, uma coreógrafa e performer portuguesa radicada no Reino Unido – dirige a companhia Instant Dissidence, em Leeds -, tenciona sofrer um ataque de epilepsia em palco. O espectáculo, agendado para Dezembro, no teatro Bradford Playhouse, está a provocar polémica, quer da parte de associações de apoio a epilépticos – que alertam para os riscos de um ataque induzido e duvidam da eficácia desta performance enquanto meio de sensibilizar a opinião pública para a doença -, mas também de artistas e críticos, que discutem a própria pertinência estética do projecto.

Marcalo explicou que já suspendeu a medicação e que recorrerá a vários métodos para induzir um ataque quando estiver em cena, como ingerir álcool, fumar, privar-se de sono, jejuar e olhar fixamente para luzes estroboscópicas.

A artista ironiza com a controvérsia que está a gerar, lembrando que a Internet está cheia de vídeos de ataques de epilepsia, filmados com telemóveis sem o consentimento das vítimas, pelo que lhe parece singular que se esteja agora a contestar um caso em que é o doente que voluntariamente se expõe. Está previsto, aliás, que o início do eventual ataque em palco seja assinalado pelo toque de um alarme, convidando o público a usar os telemóveis para gravar as convulsões.

“A minha intenção é chamar a atenção para a epilepsia, tornando-a visível”, diz Marcalo, citada pela imprensa inglesa, acrescentando que o fará “numa perspectiva artística”.

O crítico de dança Tiago Bartolomeu Costa usa as próprias declarações da artista para contestar a natureza artística do projecto. “Do ponto de vista artístico, tudo cai por terra quando Rita Marcalo diz que o seu objectivo principal é, sendo epiléptica, chamar a atenção para a doença”, afirma. “O objectivo dela não é artístico, é social”, afirma, sublinhando que é isto que “distingue de forma muito clara” este projecto de outros que são “eminentemente artísticos”, como “as famosas cirurgias-performances da artista francesa Orlan” ou a performanceSleep Deprivation, na qual Marina Abramovic ficava “várias horas acordada numa galeria tentando perceber como é que o seu corpo reagia a isso”.

Gil Mendo, programador de dança da Culturgest e professor da Escola Superior de Dança do Instituto Politécnico de Lisboa, prefere não comentar um espectáculo que não conhece, mas adianta que não tem “uma posição moralista”, que respeita “a liberdade dos artistas” e que não põe “a questão de saber se é arte ou não é arte”. Admite que até pode haver alguma coisa que o “choque do ponto de vista ético”, mas precisa que só o saberá quando vir o espectáculo.

No Reino Unido, muito dos intervenientes na polémica estão a recuperar o alegado precedente do coreógrafo Bill T. Jones, que em 1994 encenou e interpretou Still/Here, uma peça em que aborda o sofrimento causado pela sida, de que ele próprio sofria. O rosto da contestação a Jones foi, na época, a crítica nova-iorquina Arlene Crosse, que argumentou que um artista, ao utilizar a sua doença, assegura inevitavelmente a compaixão do público e coloca-se ao abrigo da crítica. Gil Mendo discorda: “O que Bill T. Jones fez foi tratar um tema pertinente, não foi nenhum apelo à piedade.” Sendo possível questionar o projecto de Marcalo no plano ético, já discutir se se trata ou não de arte é, provavelmente, um debate sem saída. Mas que nem por isso deixará de se travar, como as próximas semanas, até à estreia do espectáculo, decerto confirmarão. com I.C.
Público

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Written by Jorge

Novembro 26, 2009 at 12:56 pm

Publicado em Peculiar, Recortes, Reflexão

A História de uma Estória

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A matéria prima sobre a qual o escritor trabalha são as pessoas, a vida – os seus dramas, a sua beleza, as suas estórias. Uma escritora tem motivos para estar feliz quando escreve uma boa estória. Mas, se essa estória é inspirada num casal de amigos que não gostam da ideia, mesmo achando ela que dissimulou bem as identidades dos seus modelos, surge o conflito, a ameaça do Tribunal, o fim de uma amizade. Que fazer? Desistir de uma boa estória? Deixar a guerra rebentar – a guerra que tanta coisa vai obrigar a mudar?

Trata-se de um espectáculo que aborda questões levantadas pela privacidade, como a de saber até que ponto pode alguém inspirar-se na vida privada de outra pessoa para criar a sua obra, saber se isto é arte ou uma forma de furto? A peça aborda estas questões pelo seu lado absurdo, o conflito era desnecessário, como o são a maior parte dos conflitos.

Até 6 de Dezembro
De terça a domingo, 22h00
Garagem da Panmixia – Cace Cultural do Porto
Texto e Encenação: José Geraldo
Cenografia: José Carretas
Música Original: Les Saint Armand
Figurinos: Margarida Wellenkamp
Elenco: Actores – Ana Margarida Carvalho, Linda Rodrigues e Rui Queirós de Matos
Músicos – André Brito, André Teixeira, António Parra e Tiago Correia
Bilhetes 8€
Descontos 5€;
Grupos (superiores a 10 pessoas) 5€
CACE Cultural do Porto
Rua do Freixo, 1071
Estacionamento Privativo
Informações: 926260470 | 225180852

Written by Jorge

Novembro 25, 2009 at 12:43 pm

Publicado em Associação, Companhia, Evento

Em cena: Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski

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Um homem vagueia, sozinho, por S. Petersburgo – a cidade em peso, essa, vagueia pelos verões do campo. Uma mulher espera, sozinha, apoiada no parapeito do canal. Um oportunista, cambaleante e pouco respeitável, ensaia uma abordagem agreste e atrevida à menina do chapéu amarelo. O primeiro, o nosso sonhador, salta de rompante para o outro lado da rua – qual herói improvisado! – e afugenta a ameaça. Os ânimos acalmam. A donzela respira fundo. As mãos apertam-se. É então que ele se apercebe: uma mulher. Conheceu finalmente uma mulher! Depois disso vão encontrar-se ali mais quatro noites. Ela porque espera. Ele porque alimenta a sua espera. O amor há-de chegar de manhã. Quando a noite branca acabar. Quando a realidade tornar tudo estranho outra vez.

Às 21h45, na Sala-Estúdio Latino do Teatro Sá da Bandeira, no Porto. O espectáculo ficará em cena até ao dia 29 de Novembro, de quarta a domingo.
Uma produção: Chão Concreto
Texto: Fiódor Dostoiévski
Tradução: Filipe Guerra e Nina Guerra
Dramaturgia: Rodrigo Santos
Encenação: Rodrigo Santos
Interpretação: Ivo Bastos e Nuno Preto
Desenho de Luz: Pedro Vieira de Carvalho
Cenografia: Ricardo Preto
Figurinos: Catarina Marques
Sonoplastia: Rodrigo Santos
Design Gráfico: Mónica Santos
Produção: Marta Lima 
Informações e reservas: 91 616 52 18 / 91 983 99 97 / noitesbrancas.prod@gmail.com

Written by Jorge

Novembro 25, 2009 at 12:38 pm

Publicado em Evento

Crítica de Breve Sumário da História de Deus

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Tenho uma dor chamada Portugal

“Tenho uma dor chamada Portugal” é um verso de Ruy Belo, o mesmo poeta de quem se ouvem, perto do final deste espectáculo, as palavras “Aqui – mulher terra mar / Aqui só pode ser a casa de deus”. Belo é um dos “vencidos do catolicismo”, como disse noutro poema (que termina com as palavras de Cristo, por sua vez repetindo um salmo de David: “Meu deus meu deus porque me abandonaste?”). As citações e referências cruzadas dariam para várias edições do PÚBLICO, tal é a riqueza da obra vicentina e da mitologia judaico-cristã. E deve haver inúmeras maneiras de falar deste espectáculo. Mas a ideia mais importante parece ser essa: deus e Portugal são duas fontes de mágoa. Será?

A sucessão de quadros bíblicos e de figuras alegóricas, na qual se propõe a inserção da história de Portugal, através das cores e armas portuguesas, é simultaneamente fiel ao espírito original da obra (também nas ironias) e adequada ao público e tempo presentes. Sujeitas à acção de Lúcifer, Belial e Satanás, as figuras vicentinas vão dizendo de sua justiça defronte de um tribunal que já está convertido. Trata-se de um teatro de comunhão, fiel aos princípios da época, que se compraz na dor. No final, fica tudo na mesma, e a esperança de protesto é escondida.

O grande interesse, a forte integridade, a beleza da forma e a função deste espectáculo (e de cada um dos seus elementos) podem ser sublinhados. O desenho de luz define a atmosfera e é impressionante; os figurinos contrastantes, ora discretos ora belos; o cenário forte e sugestivo; os sons evocativos; e tudo concorre para uma realização impecável e eficaz – no propósito de construir um rito teatral solene sobre a representação da mortalidade, da divindade e das penas da vida. A elocução e a dicção são esculpidas com cuidado para que tudo se entenda e ressoe bem, dando asas aos versos de Gil Vicente. Os actores representam com limpeza e brio. Afinal, o assunto é sério.

A solenidade geral do espectáculo leva o público a reproduzi-la, e é com certa devoção que se assiste a este espectáculo, desmontada numa ou outra cena dos diabos. Nas tentações de Cristo no deserto, por exemplo, a dramaturgia permite ao espectador saber mais que as personagens e, apropriando-se da acção, reagir a ela, rindo. No restante, tanto a peça como o espectáculo se assemelham a uma missa, reiterando a gravidade dos locutores. Este espectáculo da autoridade é de tal ordem que mesmo as máscaras de Lazarim são jogadas sem a anarquia requerida. Eu, que sou da facção mais chocarreira dos admiradores de Gil Vicente, e creio que a vitalidade da sua obra vem da fusão entre carnalidade e misticismo, julgo que tanta delicadeza, censurando os corpos, é de mais. Ainda assim, vê-se (das primeiras filas) alguma saliva escorrendo na boca de pelo menos um dos actores, e outros mais bravos dando o corpo ao manifesto com humildade circunstancial.

Como extrair significados destes aspectos formais? O cenário representa um albergue nocturno ou um campo de concentração nazi; Auschwitz, porventura, o campo a poucos quilómetros da católica Cracóvia. Num ano assombrado pelo desaparecimento de tantos artistas de teatro, Breve Sumário da História de Deus é o possível requiem. O holocausto somos nós.?

Jorge Louraço Figueira
Público

Written by Jorge

Novembro 25, 2009 at 12:30 pm

Publicado em Crítica

Banco de Actores

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Já abriu Banco de Actores, um novo blog que pretende ser um repositório de currículos e informações sobre actores profissionais.
É possível enviar o currículo e fotografias para bancodeactores@gmail.com.

Written by Jorge

Novembro 16, 2009 at 8:42 pm

Publicado em Anúncio

Dramaturgia britânica

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O jovem dramaturgo Mike Bartlett diz que o teatro é mau:

«”We’ve got to get away from the idea that it’s good to go to the theatre,” says young playwright Mike Bartlett over lunch at London’s Royal Court theatre, where his new play is about to open. “It isn’t church. There’s nothing innately good about it. Most theatre is still really bad.» Guardian

Ao passo que Mark Ravenhill diz que a aposta constante em novos dramaturgos está a arruinar a dramaturgia britânica:

«Ravenhill, whose adaptation of Terry Pratchett’s Nation is currently running at the National Theatre, said the industry considered it “sexy” to find a new writer and produce their work, but complained there is no support network for these writers once they have had their first play produced.

The playwright said theatres should instead be investing more time building relationships with talent to produce a number of their plays, but claimed this required a change in the way theatres and companies currently think.» Stage

Written by Jorge

Novembro 11, 2009 at 11:18 am

Publicado em Dramaturgia

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História da Ilha do Tesouro de Stevenson, de Jorge Louraço Figueira

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“Eu porque roubo em uma barca sou ladrão e vós, porque roubais em uma Armada, sois Imperador?”
Long John Silver, pirata da perna de pau

Passaram-se dez anos sobre as acontecimentos narrados por Robert L. Stevenson no seu famoso livro “A Ilha do Tesouro”. Long John Silver, o temido pirata do romance, é agora proprietário da “Taberna  Perna de Pau” no Porto. A cidade vive ainda o rescaldo do “revolta dos taberneiros” e as águas do Douro invadem as ruas da Ribeira em mais uma das suas cíclicas cheias. Jim Hawkins, o rapaz da novela, é hoje capitão da marinha real britânica e está ancorado na cidade invicta. Os dois encontram-se e revivem  acaloradamente as suas aventuras, zangas e traições e o destino do tesouro, cuja principal parte, segundo o pirata, ainda está escondida na Ilha. O antigo pirata da perna de pau tenta convencer Jim a voltar a Ilha…”

“História da Ilha do Tesouro de Stevenson”, um texto original de Jorge Louraço Figueira (a partir da obra de Robert L. Stevenson). Encenação de José Leitão e interpretação de Flávio Hamilton e Teresa Alpendurada.

Temporada de 10 a 15 de Novembro: terça a sexta às 21h30 e sábado e domingo às 16h00 e às 21h30.
Maiores de 6 anos / bilhete: €5,00 (geral) e €3,00 (menores de 12).
No CACE Cultural do Porto, à Rua do Freixo, 1071. Informações e reservas: 22 208 40 14 ou 96 020 88 19 Leia o resto deste artigo »

Written by Jorge

Novembro 10, 2009 at 11:12 am

Publicado em Companhia, Evento, Infância