Quarta Parede

Blog de reflexão sobre teatro e dramaturgia.

Emilia Galotti – crítica de Jorge Louraço Figueira

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A força do desejo e o desejo da força
Emilia Galotti

De G. E. Lessing. Enc. de Nuno M. Cardoso. O Cão Danado / TNSJPORTO, TeCA, 28 de Outubro, 21h30

O repertório do TNSJ e, em particular, das encenações de Nuno M. Cardoso poderia ser apelidado de teatro alemão de expressão portuguesa. Esta tendência para as grandes obras da dramaturgia germânica corresponde, no fundo, ao desejo de criação de um público europeu e cosmopolita no Porto. Isto é, um teatro feito por europeus, para europeus, sobre europeus. Quem dera. Emilia Galottié um passo nesse sentido.

Emilia é uma nubente de boas famílias desejada pelo príncipe Gonzaga. Graças às providências de Marinelli, braço direito do príncipe, o futuro esposo de Emilia é assassinado e a rapariga posta a salvo debaixo da asa de Gonzaga. Uma ex-amante do príncipe, despeitada, põe a descoberto a conspiração. De mãos atadas, o pai de Emilia acaba por entregar à filha um punhal que se destinava ao príncipe. Emilia comete suicídio, para preservar a pureza e expiar a culpa de se ter deixado seduzir.

Albano Jerónimo (o príncipe) e Dinarte Branco (o braço direito) compõem personagens caprichosas cuja infantilidade perante o mundo ilustra bem o poder arbitrário que detêm. Fazem-no tão bem que o público não lhes consegue resistir. E Rita Calçada Bastos expõe a crueza da paixão da amante despeitada com tal vigor que os seus modos sedutores são, também, potentes.

A encenação alterna momentos mais líricos, de solilóquio, com diálogos propriamente ditos, em que o enredo avança. A expressividade desses monólogos impressiona. A figura de cada actor, os figurinos e o cenário potenciam as falas e os desejos de cada personagem fascinam os espectadores (ou, pelo menos, este crítico).

A oposição entre impulso irracional e medida racional é um traço comum a muita da dramaturgia alemã, que na tradição latina é geralmente olhada com maior benevolência, dando mais facilmente origem a comédias do que a tragédias. A cena final, do suicídio em nome da virgindade, custa a engolir, num mundo que impõe o gozo como estilo de vida. Mas, de facto, se Emilia representa a impotência perante atracção dos poderosos, o seu suicídio é um gesto de libertação desse jugo. A estreia de Lessing em Portugal, afinal, não toma os portuenses por hamburgueses. Pelo contrário, este espectáculo explora as relações entre desejo e poder, partindo de um ponto de vista germânico, do século XVIII, é certo, mas com um olhar partilhado pelos actuais europeus do burgo do Porto.

Público

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Written by Jorge

Outubro 30, 2009 às 12:41 pm

Publicado em Crítica, Evento

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