Quarta Parede

Blog de reflexão sobre teatro e dramaturgia.

Apalavrado

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Portugal é assim como um brinquedo, coisa que distrai e faz rir e chorar, um brinquedo que chega tarde e que demora a funcionar. Para mim é tarde Portugal, é tarde esperar de ti mais que inveja e despeito, bota a baixo e oportunismo; é tarde Portugal para ser tarde e a noite te dar alguma inspiração. Desembarcam milhões enquanto aguardo que adormeças. E se Portugal desaparecesse nessa fúria de desembarcar, se a gente toda se fundisse num jeito aflito de amar? Amar sem pátria, amar sem nome, ir mais além, dizer numa língua de bebé: fica bem, fica bem, fica bem!

Dizem que cometi um atentado ao património: que grafitei os Jerónimos, que inquiri a Inquisição, que misturei fascismo e comunismo como quem bebe um panaché, que fiquei assim olé, olé (!) sem tourada, sem fado, nem futebol, meio ao léu, ali para o Meco, sem piriléu (!) imaginem, sem vergonha, sem estilo nem clique, nem pobre, nem chique. Dizemque cometi um atentado ao património e foi um pandemónio de flashes e atenção! Fiquei confuso, joguei difuso, mergulhei obtuso e afinal era só areia, só lençol e mesa-de-cabeceira. Tenho um galo aqui para o provar (aponta testa)! Cocorocó todas as manhãs! Suavemente piso o chão: não me digas não, não me digas não!

Cobre o meu corpo, enfim, desse agasalho, meu bebe grisalho que me ouves e te espantas. Suavemente vê-me, de perfil e de frente, numa avaliação criminal põe-me algemas por este crime, por esta espécie de embirração com a facilidade e a tradição. Faz-me o mar com um til e deixa-me mergulhar nesse colo de ondas, atrai-me a essa luz que é o teu rosto que se ilumina sem tosse, nem vacina. Deixa-me ficar a teu lado enquanto me puxas os cabelos com mãozinhas de veludo. És doce e peitudo, Phelps[de encomenda, herói sem emenda, neste veio que sangra. Manga, manga (!), à sobremesa. Deixa-me ser vassalo a teu lado.

Se Deus se esqueceu de nós que não se esqueça de ti, se Deus nos abandonou que não te abandone, se Deus não tem piedade que a tenha de ti, se Deus não existe, existe tu por ele para que nada de mal te aconteça.
excerto de O Homem Que Embala O Carrinho de Bebé , de Carlos J. Pessoa

Apalavrado é um projecto artístico que reúne escritores, actores e músicos em torno da palavra e, em particular, do género literário do conto, dividido em quatro momentos.

Quatro autores criam contos inéditos ,que serão estreados em Outubro , Dezembro , Fevereiro e Abril.

Cada espectáculo reúne dois textos , um original e um clássico.

Apalavrado 1 apresenta um conto inédito de Carlos J. Pessoa ” O Homem Que Embala O Carrinho de Bebé” e ” Resumo” de Virginia Woolf, dois monólogos.

Apresentações
FNAC  NorteShopping – 23 de Outubro , pelas 22h
FNAC St.ª Catarina – 24 de Outubro, às 17h30
FNAC MarShopping – 24 de Outubro, 22h
FNAC GaiaShopping – 25 de Outubro, às 17h

Espectáculos
29-31 de Outubro – Quinta da Caverneira, Maia
5-8 de Novembro – Fábrica da Rua da Alegria
21h30h
duração aproximada: 1h

Autores : “O Homem Que Embala o Carrinho de Bébé” Carlos J. Pessoa  e “Resumo” de Virginia Woolf
Encenação :Renata Portas
Desenho de luz : Nuno Tomás
Intérpretes: José Topa / Susana Madeira
Voz-off: António Durães
preço dos bilhetes: 5,00 ( único)
info e reservas: 936737059
Produção: Renata Portas e Tenda de Saias

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Written by Jorge

Outubro 22, 2009 às 9:38 am

Publicado em Evento

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