Quarta Parede

Blog de reflexão sobre teatro e dramaturgia.

Archive for Abril 2009

O Senhor Valéry, de Gonçalo M. Tavares

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O Senhor Valéry era pequenino, andava sempre a pé, vestia sempre de negro. Tinha medo da chuva, tinha uma casa sem volume onde passava férias e um animal doméstico que nunca ninguém tinha visto. Não gostava da sua sombra, não gostava de competir, era perfeccionista. Era distraído: não confundia a mulher com um chapéu, com sucedia com algumas pessoas, mas confundia o chapéu com o seu cabelo. Conhecia apenas duas pessoas: a pessoa que ele era, nesse exacto instante, e aquela que ele tinha sido, no passado. Era casado com um ser ambíguo, como ele próprio dizia. Dele, dizia ela: Nunca eu pude apoderar-me dos seus olhares. Ele é tão estranho! Na verdade nada se pode dizer dele que não seja inexacto no mesmo instante! Eu gosto dele assim. Por muito estranhamente casada que eu seja, sou-o com conhecimento de causa. Vivemos bem instalados, cada qual no seu absurdo.

O Senhor Valéry é, porventura, o texto que revelou Gonçalo M. Tavares, cujo reconhecimento lhe mereceu a atribuição do Prémio Branquinho da Fonseca (da Fundação Calouste Gulbenkian e do jornal Expresso). Foi o primeiro, em 2003, outros prémios se seguiram.
O Senhor Valéry está na origem do conjunto de Senhores que formam O Bairro, de entre os quais o Pé de Vento estreou em 2007 O Senhor Juarroz. Agora, com O Senhor Valéry, o queremos continuar a dar a conhecer ao nosso público Gonçalo M. Tavares, um autor que tem uma maneira inusitada de olhar para as coisas, de apreender o mundo como anomalia. É um olhar que, em vez de tornar as coisas imediatamente presentes, procede por tentativas que são sempre da ordem da linguagem, (…) lógica das palavras, composição e decomposição do sentido.

 

Espectáculo da Companhia Pé de Vento

Teatro da Vilarinha

6.ª-feira às 21h45 e sábados às 16h00 e 21h45, para o público em geral;
3.ª a 6.ª-feira, às 11h00 e 15h00, para o público escolar.

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Written by Jorge

Abril 30, 2009 at 3:07 pm

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Terras de Ninguém – Apresentação das peças da Mostra Anual de Dramaturgia

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As cinco peças escolhidas para esta primeira edição da Mostra Anual de Dramaturgia têm em comum um interesse dos autores nas relações matrimoniais de uma certa classe média. Os tratamentos deste tema são muito diferentes, porém.

Em Testa-de-Ferro, de Jorge Palinhos, uma esposa traz o amante para casa, com o objectivo de matar o marido. Disfarçado de marioneta, como se isso fosse possível, o amante e o marido acabam por fazer amizade, por assim dizer. As três personagens vão alternando no papel de manipuladores, revelando que nem sempre quem puxa os cordelinhos domina o jogo da manipulação.

Em A Irrisão das Flores, Rui Pina Coelho faz uma crónica das entradas e saídas de um grupo de amigos entre 1998 e 2008, com as personagens recordando os abandonos, as separações, os filhos e os casamentos que se sucederam sem que eles soubessem muito bem como e ainda menos porquê.

Ida e Volta, de Tiago Rodrigues, um monólogo de uma mulher relatando uma viagem de separação, de comboio, acompanhada pelo insistente marido, revela a distância entre o mundo interior feminino, por um lado, e as ideias simples do género masculino, por outro.

Em Uma Carta a Cassandra, de Pedro Eiras, essa distância torna-se intransponível: um soldado das democracias ocidentais tenta ocultar à amada a verdade sobre os actos de guerra que cometeu. A mulher, porém, consegue ver o que aconteceu, deduzindo das palavras dele o não dito, a violência obscena.

A Minha Mulher, de José Maria Vieira Mendes, encerra a mostra, com o retrato de uma família numas longas férias da vida, dir-se-ia, os papéis de homem e mulher baralhando-se nos casais Pai e Mãe, Nuno e Laura, agravada a mistura pela chegada de um amigo de Nuno, carta fora de baralho. Vencedora do prémio António José da Silva, trata-se da única peça deste leque que já foi montada, tendo sido apresentada no Teatro Nacional Dona Maria II em 2007; porém, como nunca foi vista nos palcos portuenses, nem houve notícia de excursões a Lisboa, encaixa-se aqui nos critérios da MAD: mostrar textos originais e inéditos na cidade do Porto.

A perplexidade masculina perante os dons da subjectividade feminina, com os homens a repetirem-se e as mulheres a tentarem imaginar uma saída, elas mais práticas, eles mais incapazes, elas sonhando o futuro, eles enredados nas palavras, é outro traço comum a estes textos.

Os cinco autores nasceram entre 1975 e 1977, tendo atingido a maioridade legal na primeira metade dos  anos noventa. Que ansiedades nacionais podemos atribuir a estas dramaturgias pessoais? O problema não é a mobilidade social, aparentemente resolvida, nem a constituição de uma comunidade política, sonho desleixado. O impasse dos casais, materializado num amante fantoche, num jardim intemporal, numa viagem de comboio, nas cartas do soldado à amada, numa casa de férias em chamas (em lume brando, aliás) gera falas de contemplação de actos passados, localizadas em terras de ninguém, que parecem traduzir um impasse mais generalizado, se não do país, pelo menos dos portugueses (classes, géneros, gerações) que aqui são ficcionados.

Jorge Louraço

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Abril 27, 2009 at 3:39 pm

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O que é um Teatro Municipal?

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Segunda-feira, dia 27 de Abril, às 18 horas, nos Maus Hábitos

Pergunta no limiar da falsa inocência, ponto de partida para uma reflexão sobre o serviço público de cultura ao nível local, os equipamentos culturais municipais e, naturalmente, sobre o processo e situação do Teatro Rivoli.

Com:
Isabel Alves Costa
Mário Moutinho
Igor Gandra
Catarina Martins
Ada Pereira da Silva

Written by Jorge

Abril 27, 2009 at 3:03 pm

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Carta do Teatro Plástico

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A propósito dos 35 anos do 25 de Abril

Pelo facto de o director artístico do Teatro Plástico (no decorrer de uma caricata e muito significativa saga para obter uma audiência) ter comunicado à secretária do actual ministro da Cultura que o referido ministro carecia de legitimidade e que partilhávamos da convicção generalizada da maioria dos agentes culturais portugueses de que este havia sido nomeado por engano em vez do seu homónimo António Pinto Ribeiro (ex director da Culturgest) o Teatro Plástico viu o seu contrato de apoio financeiro ser abrupta e ilegalmente suspenso numa tentativa capciosa de nos impedir de concorrer ao concurso de apoios directos à criação teatral.

Agora com a publicação dos resultados oficiais do referido concurso a tentativa materializa-se: ao fim de 13 anos de actividade contínua e de um percurso artístico independente e coerente que conta no seu historial com estreias nacionais, europeias e mundiais de alguns dos mais importantes dramaturgos contemporâneos o Teatro Plástico (a jovem companhia portuense com mais público e visibilidade e um trabalho transdisciplinar experimental e mesmo pioneiro no campo "site specific" que tem procurado novas formas e sentidos para o acto teatral na vida urbana contemporânea) vê-se oficialmente extinto pelo Ministério da Cultura, organismo que tem por função a defesa e fomento da arte e cultura em Portugal.

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Written by Jorge

Abril 24, 2009 at 3:53 pm

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O Anzol, de Gemma Rodríguez

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Uma produção de Visões Úteis

Written by Jorge

Abril 22, 2009 at 10:07 am

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Empresa privada sustentada pela Câmara Municipal do Porto

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Rui Sá diz que Rivoli custa 600 mil euros/ano, autarquia afirma que poupa 2,5 ME

O vereador da CDU na Câmara do Porto, Rui Sá, afirmou hoje que o Rivoli, cuja programação é da responsabilidade de Filipe La Féria, custa aos cofres da autarquia 600 mil euros por ano, mas a autarquia diz que está a poupar 2,5 milhões de euros anuais.

"Estamos a transferir dinheiro de todos nós para pagar a actividade de uma empresa que é lucrativa. Temos uma empresa privada que está a utilizar um equipamento da câmara, que paga, pelo menos, 50 mil euros por mês, ou seja, 600 mil euros por ano", afirmou o autarca comunista, em declarações aos jornalistas, no final da reunião camarária de hoje.

Rui Sá referia-se à entrega da programação do Teatro Rivoli à empresa Todos ao Palco, do encenador Filipe La Feria, e ao facto da receita de bilheteira, entregue à Câmara, não compensar as despesas da autarquia com o espaço.

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Written by Jorge

Abril 20, 2009 at 11:27 am

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Invasão, de Júnior Sampaio

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“As pessoas fazem a História, mas raramente se dão conta  do que estão a fazer”
Christopher Lee

Vestir-se de Napoleão, D. João VI, D. Maria I, D. Carlota Joaquina, Sr. Amável Tripeiro, Índio Comelambe, Feijão Escurinho, Soldado Chumbinho, Piolho de Cabeça Real e muitos outros é o sonho de um professor lunático para a sua última aula de História…
Revolucionários franceses tomam a Bastilha…
Napoleão coroa-se a ele próprio Imperador da França…
Napoleão invade Portugal…
A corte portuguesa “foge” para o Brasil…
A Ponte das Barcas não suporta o peso do pânico…
Guerras territoriais, jogos políticos, lutas de poder… intrigas passadas vividas no presente, na imaginação de um professor apaixonado pela sua profissão…

ENTREtanto Teatro
17 a 19 de Abril – Sexta-feira – 21h45 e 17h (domingo)
Fórum Cultural de Ermesinde

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Written by Jorge

Abril 17, 2009 at 11:32 am

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