Quarta Parede

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“Tambores na noite”: Revolução em palco

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Estreia hoje no Porto a primeira encenação de Nuno Carinhas como director artístico do “São João”

“Tambores na noite”, a segunda peça do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, estreia esta sexta-feira no Teatro Nacional São João, no Porto, às 21.30 horas. A encenação é de Nuno Carinhas, sucessor de Ricardo Pais na direcção artística da casa.
Negando quaisquer “veleidades de novidade”, Nuno Carinhas entende que “ser director artístico não é assim uma coisa tão empolgante”. É, antes, “uma consequência de muitos anos de trabalho”. Palavras deixadas aos jornalistas aquando da apresentação de “Tambores na noite”, cuja estreia coincide com a chegada do encenador à direcção artística do Teatro Nacional São João (TNSJ), ainda que, para já, na condição de indigitado.
“Não acho que esteja a receber uma herança caída do céu. De alguma maneira, herdo uma série de anos de trabalho numa casa que eu próprio ajudei a construir e da qual fiz parte, de há 14 anos para cá”, afirmou Carinhas, salientando haver no TNSJ um “projecto muito bem construído” e “suficientemente cimentado para que isto seja uma sucessão sem conflito”.
Segundo o encenador, a ideia de trabalhar um texto do dramaturgo alemão fazia parte, há anos, das intenções de programação de Ricardo Pais, em quem vê um “amigo e mestre”. Já a escolha desta peça em particular é que não foi um acaso. Havia uma “grande preferência por este jovem Brecht”, disse Carinhas, realçando o facto de “Tambores na noite” conter uma boa dose de agitação social e de ser “uma peça de colagens, de fragmentos”.
O texto, o segundo da dramaturgia de Bertolt Brecht mas nunca por ele encenado, coloca em paralelo um drama familiar e os ecos da fase final da Revolução Espartaquista, conflito que decorreu na Alemanha durante a I Guerra Mundial, sob a liderança da filósofa marxista Rosa Luxemburgo. Aspecto que interessou ao encenador, em particular, foi “a história do regressado de guerra”, que neste texto é Andreas Kragler (cujo papel é representado por Paulo Freixinho), um homem que volta ao fim de quatro anos e “que por meia hora perde a noiva”, explica Carinhas.
Outro dos desafios que encontrou no escrito de Brecht foi colocar os actores mais em circunstâncias do que em personagens, para que usassem o drama, a comédia e a farsa. Nuno Carinhas diz mesmo que o autor “introduz uma disciplina e uma espécie de nobilização do acto de representar”, acrescentando que Brecht “dá a ver todos os actores”. Entre eles estão Emília Silvestre, Fernando Moreira, Pedro Almendra e Sara Carinhas (no papel de Anna Balicke), filha do encenador.
Dando seguimento à sua tendência para “enxertar música nos espectáculos”, Carinhas incluiu a “Cavalgada das Valquírias”, prelúdio da ópera de Wagner “As Valquírias”, e escolheu, para fechar o espectáculo, uma canção de Tom Waits. “É o mais brechtiano dos contadores de histórias e tem ainda aquele tom do cabaré, da noite”, justifica. Waits diz: “Somos inocentes quando sonhamos”.

O espectáculo estará em cena até ao dia 26 de Abril, com sessões às 21.30 horas, de terça a sábado, e às 16 horas, aos domingos.

Nuno Carinhas, encenador: “É um poeta extraordinário”

O que o fascina mais em Brecht?
Brecht é um poeta extraordinário. E isso, se calhar, leva-nos a uma evidência, a de que todos os grandes dramaturgos são grandes poetas. E este, de alguma maneira, obriga-nos a rever a história do teatro do século XX. É, se não o maior, um dos maiores dramaturgos, aquele que mais desafiou o sistema e o que mais polémica instaurou.

É preciso mais maturidade para este tipo de encenações?
Isso é preciso sempre. Se nos é dada a possibilidade de escolher, escolhemos aquilo que mais nos agrada tratar na altura. Aqui, obviamente, a escolha da peça também tem a ver com a possibilidade de trabalhar com este grupo de actores.

É mais uma peça à medida deles?
Sim, à medida de nós todos e da casa também. São pessoas que estiveram no elenco do “Café”, do Fassbinder, do “Mercador de Veneza”, do “Platónov”. São pessoas que têm percorrido as últimas peças que se fizeram na casa.

A sua filha, Sara, tem um papel de destaque…
A minha filha estava no “Mercador de Veneza”. Não estava neste elenco à partida, só que houve uma actriz para este papel que não pôde fazê-lo. Então, e porque havia também que quebrar esse tabu de trabalhar ou de não trabalhar com o pai… Acho que ela já deu provas suficientes e, portanto, não estou a promovê-la.

É mais exigente com ela?
Às vezes poderei discriminá-la por não lhe dar a atenção que ela, enquanto jovem actriz, merecia que se lhe desse, porque quero tratá-la exactamente de forma igual a todos os outros.

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Written by Jorge

Março 20, 2009 às 12:14 pm

Publicado em Instituição, Recortes

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