Quarta Parede

Blog de reflexão sobre teatro e dramaturgia.

Viagem surpreendente ao mundo de Ptolomeu

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O Teatro do Campo Alegre, no Porto, acolhe a partir deste sábado, às 21.30 horas, a 91.ª produção da companhia Art’Imagem. “Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação” é uma adaptação da desconcertante novela homónima de Tchalê Figueira.

Desconcertante pode ser também a peça, na medida em que não esconde nenhuma das despudoradas palavras que o escritor e artista plástico usa no texto, publicado em 2005. “Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação” é, assim, uma provocação em palco. Como refere José Leitão, o encenador, “a linguagem faz de Tchalê um Henry Miller cabo-verdiano”.

Também ele cabo-verdiano de Mindelo (tal como o autor e a personagem central), o actor Flávio Hamilton assume o papel de Ptolomeu, um orgulhoso macho que não tem “o vício de atracar de popa”, um bêbado ali a relatar escaldantes episódios das viagens que fez. O interlocutor é um artista incrédulo (Valdemar Santos) que está a escrever a história do velho marinheiro. A dada altura, as duas personagens invertem os papéis.

José Leitão avisa que, apesar de o tom ser de comédia, “isto é uma tragicomédia”. E explica: “Ptolomeu vive sempre bêbado. Há muitos Ptolomeus hoje nas ruas de Mindelo, olhando o mar, o vazio”. E tanto assim é que a história acaba em morte, não sendo certo, porém, se o marinheiro se suicida.

A peça situa-se nos anos 70 e contém referências explícitas ao regime da extinta URSS e às ditaduras do “Dr. Dalazar”, de Videla (Argentina) e de Franco (Espanha). Aborda a independência de Cabo Verde, com menções constantes aos “tugas” e à “Tugolândia”, mas não esquece temas actuais.

“Sob o pretexto de um marinheiro, fala de questões importantes que estão nas entrelinhas”, refere o encenador. Disso são exemplos as alusões à emigração e à prisão de Guantánamo, na cena em que Ptolomeu é interrogado numa prisão de Vladivostok: as insígnias norte-americanas na farda do militar russo, o hino dos EUA, o fato cor-de-laranja do prisioneiro.

Quanto à linguagem, que José Leitão classifica como “bastante dura e a roçar a boçalidade”, assume aqui um duplo papel. Se, por um lado, a intenção é chocar, por outro, pretende-se “chamar a atenção sobre o consenso”. “Toda a gente pensa que a democracia é só consensos, mas é preciso dizer basta”, refere, acrescentando que “as masmorras das democracias têm tanto de mau como as das ditaduras”.

“Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação” teve estreia mundial em Setembro, durante o Festival Internacional de Teatro de Mindelo, em Cabo Verde, onde teve uma recepção calorosa. “O autor é muito querido em Cabo Verde e é muito amigo dos pobres e das gentes do mar”, diz José Leitão, salientando ainda a faceta de artista de Tchalê Figueira, cuja pintura de intervenção, muito cromática, “conta as histórias do seu povo”.

Depois da antestreia na recente edição do Festival Internacional de Teatro Cómico da Maia, o espectáculo é apresentado a partir de hoje no auditório do Teatro do Campo Alegre. De terça a sábado, às 21.30 horas e aos domingos às 16. Esta viagem em torno da vida do velho marinheiro é interdita a menores de 16 anos e dura quase duas horas, sem intervalo.

JN

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Written by Jorge

Outubro 20, 2008 às 4:51 pm

Publicado em Companhia, Evento

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