Quarta Parede

Blog de reflexão sobre teatro e dramaturgia.

Companhia Pé de Vento faz 30 anos, no JN

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Companhia Pé de Vento faz 30 anos
Pé de Vento é das companhias mais antigas da cidade do Porto, mas aniversário é modesto
ISABEL PEIXOTO

Foi há 30 anos que o Pé de Vento se mostrou pela primeira vez ao público do Porto. Apesar da respeitável idade, a companhia assinala o aniversário de forma modesta. Não há dinheiro para uma celebração à altura.

Passa-se a primeira porta e eis que surge à mão esquerda, tão fresco como em Julho de 1978, o grande boneco que abre a boca e revira os olhos. Quando era mais novo, também soltava ideias pela cabeça, ou não fosse ele Ventolão, o centro das atenções da peça com que o Pé de Vento se lançou nesta coisa do teatro, faz hoje 30 anos: “O maior intelectual do mundo”. Abria-se caminho a uma história que não se escreve se não com sonhos.

Ventolão mira-nos da entrada. Como guardião de três décadas de memórias, desde os tempos em que o Pé de Vento estava longe de fixar-se no Teatro da Vilarinha, mira-nos à espera que lhe ponhamos a mão. E resulta, pois não há grande nem pequeno que resista à simpatia daquela coisa enorme, feita de pasta de papel. Como anfitrião, abre as portas para uma casa onde até no ar que se respira há lugar para um sinal do passado.

Apesar da respeitável idade, a terceira companhia de teatro mais antiga da cidade do Porto (depois do TEP, que acabou por instalar-se em Gaia, e da Seiva) não pôde assinalar o aniversário como gostaria. A falta de financiamento fez atirar para as calendas a edição de um livro de memórias. Pelo mesmo motivo, não foi possível realizar uma série de debates em que se iria falar de 30 anos de teatro e do público infanto-juvenil, o alvo que o Pé de Vento escolheu e conseguiu manter desde a primeira hora, aquela em que “O maior intelectual do mundo” estreou num palco da Cooperativa Árvore.

Porque a modéstia a isso obrigou, um dos momentos mais marcantes do aniversário acabou por ser a apresentação, até há poucos dias, de “História do sábio fechado na sua biblioteca”, de Manuel António Pina, co-fundador , autor do primeiro texto que a companhia encenou e também um dos colaboradores mais frequentes, a par de Álvaro Magalhães e de Teresa Rita Lopes. A 13 de Dezembro, será inaugurada, na Biblioteca Almeida Garrett, uma exposição com cenários, figurinos e documentos ligados à história do grupo de teatro.

“Será uma mostra do que tem sido o nosso trabalho, sobretudo a nível estético”, explica João Luiz, encenador e director. A esperança é de que a Câmara do Porto possa depois encontrar um local onde todo esse património seja conservado, visto que a companhia não tem capacidade financeira para armazenar uma quantidade tão grande de material em condições de preservação.

Em 30 anos, o Pé de Vento apresentou inúmeras peças inéditas, tendo sempre as crianças e os jovens como destinatários. Escolhas que João Luiz justifica deste modo: “Parecia-me que uma boa parte da actividade teatral da altura estava muito preocupada em recuperar os textos que a censura tinha cortado. No entanto, a nova realidade para o Pé de Vento era a possibilidade de democratizar o acesso à cultura que o 25 de Abril veio proporcionar”.

A altura era, também, aquela em que a escola se abria à comunidade artística. “Mas havia pouco teatro para miúdos. Havia como entretenimento, mas como confronto com a literatura e o espírito crítico, não havia”, lembra João Luiz. Outra das grandes opções do Pé de Vento foi a itinerância, sobretudo antes de 1996, ano em que se instalou na Vilarinha. “Tudo o que havia estava consignado às duas ou três grandes cidades do país. Ir ao encontro dos espectadores transformou isto tudo numa grande aventura”, diz ainda, rindo-se do facto de todas as carrinhas que a companhia usou terem caído de podres.

Por muitos apontado como o grande responsável pela resistência do Pé de Vento, o director foge a protagonismos: “Pela quantidade de pessoas que aqui passam – escritores, cenógrafos, músicos e actores – e à medida que as coisas crescem, a companhia vai-se transformando numa instituição e isso ultrapassa o querer do próprio. Se sobreponho o meu sonho individual ao sonho que pode ser comparticipado por outros, é certo e sabido que vai ao fundo”.

E se até agora não se afundou esta companhia, só mesmo a falta de dinheiro pode fazê-la perigar, pois ainda não estão definidos os apoios para os próximos anos. O que ninguém lhe tira é o estatuto de “instituição da cidade, que ganhou vontade própria, como as personagens do teatro ou de um romance”, garante.

JN

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Written by Jorge

Julho 22, 2008 às 5:15 pm

Publicado em Companhia, Recortes

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