Quarta Parede

Blog de reflexão sobre teatro e dramaturgia.

“Platónov” no JN

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Teatro Nacional de São João, no Porto, apresenta, a partir de hoje, a longa peça, escrita por Anton Tchékhov

Prepare-se o público, pois esperam-no quatro horas de espectáculo. “Platónov”, de Anton Tchékhov, é a proposta arrojada do Teatro Nacional de São João, no Porto, para o fecho da temporada. Estreia hoje, à noite.

Foi só a partir da segunda metade do século XX que “Platónov” mereceu acolhimento crescente nos teatros mundiais. Ou por ser demasiado extensa – sem quaisquer cortes, daria um espectáculo de seis horas -, ou por nascer da imaturidade de Tchékhov, a peça foi desprezada durante décadas, pelos profissionais e pelo público. Inclusivamente, alguns encenadores optaram por apresentar apenas um dos actos do texto, escrito em 1878 ou 1880.

Mas não é essa, contudo, a opção de Nuno Cardoso, que esteve oito meses a trabalhar fora do Porto. Regressado agora à casa que lhe permitiu “fazer repertório”, como o próprio afirma, o encenador escolhe a versão de quatro horas e não teme que o espectador abandone a sala. “Se pudesse, fazia com cinco (horas)”, disse, durante a apresentação de “Platónov”. O estereótipo do teatro de hora e meia é, pelas suas palavras, “das maiores alarvidades que se têm dito ultimamente”.

Cardoso acredita que este seu trabalho “pode ser uma experiência estival interessante”. E porque entende que o teatro deve ser visto como uma “experiência quase eucarística”, um local de reflexão (“se quiserem comprar enlatados, vão ao supermercado”), lança a questão, em jeito de convite: ” Há quanto tempo as pessoas não concedem a si próprias uma noite? Isto é uma proposta – conceda-se o tempo de ver uma história”.

A história tem o nome da personagem central, professor inconstante no pensar e no agir que seduz e humilha as mulheres e que, embora não o queira em consciência, procura a morte. Para o encenador, Platónov, a personagem, ” é o paradigma do homem contemporâneo, nesta sociedade pós-moderna”.

A obra inaugural do dramaturgo russo, que era também médico, explora as contradições inerentes à condição humana, como acontece nas subsequentes. Daí que o encenador veja neste texto “o universo tchekhoviano em estado bruto”. Nuno Cardoso diz que em Tchékhov importa não o que se diz, mas a maneira como as pessoas dizem, tal como na actualidade. “Tchékhov aborda isso de uma forma muito clínica, é como uma autópsia ao aspecto intelectual das pessoas”, acrescenta.

Fascinado por outros textos do mesmo autor, em particular “A gaivota” (que espera vir a encenar, tal como “O cerejal”), Cardoso preparou “Platónov” no espaço de dois meses, a partir da tradução de António Pescada. O elenco é composto por 16 actores, a cenografia é assinada por F. Ribeiro e os figurinos foram criados pela dupla Storytailors.

O cenário pouco varia. Há quatro linhas de comboio, um piano vertical, um banco de jardim. Luzes intermitentes de uma passagem de nível, pessoas. Uma guitarra e muito movimento. Diz o encenador que dominam as linhas de vida que se cruzam e se perdem. “É um cenário com matizes metafóricas”.

O espectáculo fica em cena até 3 de Agosto e, para compensar o facto de ser uma obra muito extensa, tem dois intervalos. Sessões às 21 horas de terça a sábado e às 16 ao domingo.

JN

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Written by Jorge

Julho 17, 2008 às 1:56 pm

Publicado em Uncategorized

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