Reposição – O Mercador de Veneza
É muito bela, visualmente, a versão de O Mercador de Veneza, de William Shakespeare, que Ricardo Pais leva à cena. Com uma cenografia depurada e alguns figurinos resplandecentes, são criadas imagens que ficam na retina. Contudo, as opções dramatúrgicas já me parecem mais discutíveis. À dicotomia Shylock-Pórcia de impotentes poderosos, que Shakespeare escrevera, Ricardo Pais opõe a dicotomia António-Shylock e é entre eles que o conflito encerra. O sentido desta dicotomia é explicitado pela oferta da carne de António em favor dos seus amigos e pela languidez que Albano Jerónimo empresta ao corpo desta personagem. Mas este paralelismo de judeu-homossexual como seres ostracizados, que Ricardo Pais tenta montar, não subsiste apenas pelo texto e pela encenação, e torna-se necessário criar uma nova cena, original, em que os corpos de António e Shylock são sobrepostos, numa imagem, um tanto óbvia, de identificação perfeita. Esta escolha dramatúrgica, porém, torna praticamente irrelevante o papel de Pórcia – ou mesmo a presença feminina na peça – pelo que as cenas que decorrem em Belmonte, arrumadas na segunda parte do espectáculo, perdem toda a sua força e coerência narrativa.
Destaque ainda para a excelente tradução, fluida e poética, de Daniel Jonas, e para o Shylock, grandioso e quebrado, de António Durães.
O Mercador de Veneza
De William Shakespeare
Tradução de Daniel Jonas
Encenação de Ricardo Pais
De 6 a 18 de Janeiro
Teatro Nacional S. João
Outras críticas: Jorge Louraço Figueira e João Paulo Sousa