Quarta Parede


Portogofone (II) - Abre hoje

Publicado em Evento, Instituição, Recortes por Jorge no Dezembro 6, 2007

William Nadylam faz música de elevador no primeiro dos quatro dias europeus do teatro

Conferência de Imprensa, de Alvaro Garcia de Zúñiga, abre hoje o Portogofone

William Nadylam foi o Hamlet mais extraordinário que se viu no início da década e foi assim que ficou, para memória futura: como o Hamlet de Peter Brook. Agora que está no Porto para ser o actor total de Conferência de Imprensa (e ser o actor total implica responder a todas as perguntas, eventualmente até marchar ao som delas, e acreditar até ao fim que não há business como o show business) ele pode continuar a ser extraordinário.
Hoje, amanhã e depois - sempre às 20h, no Mosteiro de S. Bento da Vitória, no Porto - vamos ouvir Nadylam em loop a dizer coisas que já ouvimos na vida real (também tivemos as nossas picaretas falantes). Coisas como “precisamos de fazer cortes”, “uma promessa não é um compromisso”, “seria prematuro eu avançar alguma coisa sobre o assunto” e “é o sistema, acontece cada vez mais, não podemos fazer nada”. Vamos ouvi-lo a repetir isso e provavelmente vamos acreditar, como quem acredita em música de elevador. Não a música de elevador que ouvimos no elevador - estamos a falar da música de elevador que ouvimos nos corredores do poder (já ninguém acredita nela, mas que ainda a há, há).
William Nadylam sozinho durante uma hora, a ouvir perguntas imaginárias e a dar respostas que não dizem nada. É o círculo vicioso do poder, explica Alvaro Garcia de Zúñiga, o dramaturgo e compositor português (mas de Montevideu) que escreveu este monólogo para o corpo e a voz de Nadylam: “Conheci-o em palco, vi-o a fazer um Hamlet e depois encontrámo-nos num jantar. Falámos muito e passei os dias seguintes a mostrar-lhe Lisboa ["os azulejos, o bacalhau", interrompe o actor francês, mas dos Camarões]. Algum tempo depois, não sei exactamente quando, disse-lhe que tinha vontade de fazer uma peça sobre o poder. Ele gostou da ideia e partimos para este solo.”

Zapping de personagens
Conferência de Imprensa é o que Alvaro Garcia de Zúñiga tem a dizer sobre o poder: nada. Nunca saberemos quem é este homem que fala de todos os assuntos (o desemprego, as condições de vida nas minas, as catástrofes humanitárias, um manuscrito encontrado na Sicília, o direito de ingerência, as dificuldades do financiamento, o último filme que viu no cinema), mas William Nadylam também não. “Tenho a impressão de ter um telecomando na mão e de fazer zapping de uma personagem para a outra, a uma velocidade constante, como se houvesse uma partitura musical e eu estivesse a segui-la”, diz o actor ao P2. “No final, quando a marcha militar se mistura com aquele there”s no business like show business, há um momento em que se ouve, atrás, “esquerda, direita, esquerda, direita”. E isso é emblemático do poder: vai-se sempre na mesma direcção, quer se vá para a direita, quer se vá para a esquerda.”
É isso que vemos acontecer nos corredores de poder e é isso que vemos acontecer nas conferências de imprensa, o não-lugar escolhido pelo autor do texto para esta reflexão sobre o círculo vicioso do discurso político (onde se lê político também pode ler-se económico, ou mediático). João Louro cenografou este não-lugar de maneira a parecer-se tanto com os press rooms alcatifados da política norte-americana como com os estendais de roupa da Europa mediterrânica. Fazem-se muitas coisas nas conferências de imprensa, incluindo lavar roupa suja.
Programa para quatro dias
O programa Portogofone começa hoje uma hora e meia antes da estreia absoluta de Conferência de Imprensa: a Charanga, dos Circolando, chega às 18h30 à Praça Carlos Alberto, dando o tiro de partida para quatro dias europeus do teatro que incluem mais uma novidade em primeira mão (Turismo Infinito, nova criação de Ricardo Pais a partir de textos de Fernando Pessoa) e uma mostra do melhor que o Teatro Nacional S. João (TNSJ) andou a fazer nos últimos anos, à atenção dos programadores internacionais convidados. Ella, o one man show de Fernando Mora Ramos que teve estreia há dois anos no TNSJ, Todos os que Falam, parceria da Assédio com o Ensemble sobre dramatículos de Samuel Beckett, e Quarto Interior, também da Circolando, são os espectáculos que o TNSJ acredita poder colocar lá fora.
Mas os próximos dias vão servir também para voltar a acreditar no teatro como uma festa - no sábado vai haver micro-acontecimentos em locais inesperados (uma cabine telefónica na Cordoaria, o metro, a sala de pequenos-almoços de um hotel) - e como tema de discussão. Amanhã e depois, a mesa-redonda Teatro Europa vai debater as condições da criação teatral no contexto das políticas europeias, no domingo o Portogofone acolhe a 37ª assembleia geral da União dos Teatros da Europa, a que o TNSJ aderiu em 2003.

Conferência de Imprensa
De Alvaro García de Zúñiga.
Porto Mosteiro de S. Bento da Vitória. Hoje, amanhã e depois, às 20h. Bilhetes a dez euros.
Almada Teatro Municipal de Almada. Dias 14 e 15, às 21h30; dia 16, às 16h. Bilhetes entre cinco e 11 euros

Público, P2 6/12/2007

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