Menos emergências, de Martin Crimp
7 a 18 de Novembro
Menos emergências, de Martin Crimp
Contra a Parede e Menos Emergências, constituem uma espécie de díptico sobre a violência e a desolação, um tema explorado em anteriores trabalhos dos Assédio. Embora ficções autónomas, ambas peças partilham métodos de composição e de funcionamento dramatúrgico semelhantes, apostando num tão fascinante como desafiador esbatimento das fronteiras entre representação e narração.
A distância irónica de Crimp de volta à agenda da ASSéDIO
É a quinta vez que a ASSéDIO visita o universo dramatúrgico de Martin Crimp. Nas notas introdutórias de Contra a Parede + Menos Emergências, dois-em-um que poderá ser visto até à próxima quinta-feira no pequeno auditório do Rivoli, Paulo Eduardo Carvalho fala de um «fascínio recorrente» do colectivo portuense pelo autor britânico, mas os actores são os primeiros a rejeitar a ideia de fetiche. «Não, é apenas um dramaturgo que nos agrada muito, tanto formalmente como pelo que diz», esclarece Rosa Quiroga.
É ela quem veste a personagem empurrada Contra a Parede, uma espécie de pivô televisivo que se esquece de partes do texto, sobre um homem que, sem antecedentes, desatou a matar pessoas numa escola. Com ela partilham o palco Lígia Roque e Paulo Freixinho, entertainers, e ainda o encenador deste díptico, João Cardoso, no papel de um teleponto semi-humano - é a sua figura que surge, em vídeo, a cobrir as «brancas» da apresentadora.
Aparentemente acessória, esta personagem é, na verdade, central, já que sintetiza a ideia de bidimensionalidade em que assenta o texto de Crimp. E que é sublinhada pela disposição linear dos elementos em palco - actores e painéis alinhados à boca de cena, num esquema evocativo da banda desenhada. A tensão vem justamente dos bloqueios da pivô, denunciadores de um trânsito parado entre a linguagem e os sentimentos o horror do que é descrito não se compadece com a pose e o discurso televisivos. Tão-pouco com a ilusória pretensão de descobrir a causa definitiva, sob a qual os media legitimam a devassa e a espectacularização do íntimo.
No registo irónico e aberto que o caracteriza, Crimp define a frivolidade como tema - nos homens e na própria linguagem (sobre cuja utilidade nos quer fazer pensar). Isto, sem fechar sentidos ou tomar partidos, muito menos adoptar maniqueísmos. «Parece que faz de propósito para não podermos falar sobre ele», diz Lígia Roque, aludindo ao facto de o autor rejeitar a estória e as pedagogias. «Trabalha mais sobre a linguagem do que sobre as situações ou as personagens».
Estas são, segundo Rosa Quiroga, «seres que se arrastam para um final penoso». Que fica por desvendar, já que o interesse de Crimp reside no processo, no movimento, e não no desenlace, na morte. A partir de um texto seu, é possível construir tramas ficcionais acabadas e, porventura, ideologicamente opostas, dada a margem de manobra que a sua distância irónica oferece, mas João Cardoso preferiu manter «aberta» a leitura da peça e «deixar as conclusões com o espectador».
Menos Emergências, o lado b, passa-se num cenário idílico, ilusão preservada pelas personagens, que expõem uma espécie de esquizofrenia do optimismo, negando a realidade. É, mais uma vez, o cinismo clínico de Crimp.
Pelos ASSÉDIO – Associação de Ideias Obscuras
Local: Teatro Helena Sá e Costa, Rua da Alegria, 503
(entrada pela Rua da Escola Normal, n.º 39)
Horário: Terça a Domingo: 21h30
Preço: de 5 a 10 euros
Horário de Bilheteira: Só em dias de espectáculos, duas horas antes do ínicio.
Para mais informação: anapaula@esmae-ipp.pt; www.esmae-ipp.pt/thsc/
Tel. 225 189 982/3 Fax 225 189 984
